DOUTRINA DAS ÚLTIMAS COISAS

 

Louis-Berkhof


O ESTADO INTERMEDIÁRIO

A doutrina das últimas coisas nunca ficou no centro da atenção, é
uma das doutrinas menos desenvolvidas, e portanto não exige discussão elaborada. Seus elementos principais têm sido mais ou menos
constantes, e estes constituem praticamente o dogma inteira da Igreja
com respeito às coisas futuras. Ocasionalmente, pontos de vista diferentes ocupavam uma posição importante nas discussões teológicas,
mas nunca foram incorporados nas Confissões da Igreja. Pode ser,
conforme conjectura o Dr. Orr, que já chegamos àquele ponto na
história do dogma em que a doutrina das últimas coisas receberá maior
atenção e será levada a maior desenvolvimento.
Os Pais Apostólicos ainda não refletiram sobre o estado intermediário. De acordo com a opinião comum dos seus dias, os piedosos, ao
morrerem, imediatamente herdariam a glória celestial preparada para
eles, e os ímpios passariam imediatamente para os sofrimentos do
inferno. Foi só quando ficou aparente que Cristo não voltaria imediatamente que os Pais da Igreja começaram a refletir sobre o estado entre
a morte e a ressurreição. Um dos primeiros foi Justínio, que disse: “As
almas dos piedosos estão num lugar melhor, e as dos injustos num lugar
pior, aguardando o tempo do juízo”. Denunciava como hereges os que
diziam que, quando morriam, suas almas eram levadas ao céu
A opinião geral dos Pais posteriores, tais como Ireneu, Tertuliano,
Hilário, Ambrósio, Cirilo, e mesmo Agostinho, era que os mortos
descem até hades, um lugar com várias divisões, onde permanecem até
ao dia de juízo, ou, segundo Agostinho, até que são suficientemente
purificados. Na medida em que veio a ser aparente que a parousia de
Cristo era um evento distante, ficou sempre mais difícil conceber o
hades como habitação meramente temporária e provisória dos mortos.
Logo foi providenciada uma exceção para os mártires que, segundo
Tertuliano, eram imediatamente aceitos na glória. A descida de Cristo
ao hades foi interpretado como tendo efetuado a libertação dos santos do Velho Testamento do Umbuspatrum. E quando a doutrina do mérito
das boas obras assumiu proeminência, ensinava-se que os que eram
diligentes nesta prática eram dignos de passar imediatamente ao céu.
Hades gradualmente estava sendo despojado dos seus habitantes
virtuosos. Finalmente, só sobraram os ímpios, e começou a ser considerado um lugar de punição, às vezes identificado com geena. Origines
ensinou explicitamente que Cristo transportou todos os justos de
épocas anteriores do hades para o paraíso, o qual a partir de então era
considerado o destino de todos os santos que morriam.
Ém conexão com a idéia de que muitos cristãos não estão suficientemente santos na ocasião da sua morte para entrar na região da bem-
-aventurança eterna, começou a ser corrente a convicção de que os tais
são sujeitos a um processo de purificação além-túmulo. Os Pais
Primitivos da Igreja já tinham falado de um fogo purificador, que
alguns deles localizavam no paraíso e outros associavam com a
conflagração final. Nem sempre tinham em mente um fogo literal ou
material, mas muitas vezes pensavam num teste ou disciplina espiritual. Origines tinha o conceito de hades, inclusive geena, e a conflagração
final no fim do mundo, como sendo fogo purificador. Vários dos Pais
posteriores da Igreja, gregos e latinos, tais como os três capadocianos,
Ambrósio, Efraim, Agostinho e outros, tinham a idéia de um fogo
purgatorial no estado intermediário.
Foi especialmente no Ocidente que se desenvolveu a idéia de um
fogo purgatorial especial. Gregório o Grande já enfatizou-o como
matéria de crença sem dúvidas. Disse ele: “Deve ser crido que existe,
por causa dalgumas pequenas falhas, um fogo purgatorial antes do
juízo”. Daí ele é usualmente chamado “o inventor do purgatório”. Foi
também o primeiro que claramente expôs a idéia, vagamente crida por
outros muito tempo antes dele, da libertação deste fogo mediante
orações intercessórias e oblações. Os escolásticos e místicos medievais
eram muito explícitos na sua descrição do purgatório, e a maioria deles
o concebiam como sendo um fogo material. A Igreja grega nunca
aceitou bem os conceitos grosseiros correntes no Ocidente.
A localização do purgatório também era assunto de debate, e era
geralmente considerado que se tratava da parte do hades mais perto do
inferno. A pouca distância de lá havia o limbus infantum, o lugar onde,
de acordo com os escolásticos, as crianças que morreram sem ser
batizadas eram confinadas, sem sofrer nenhuma dor positiva, contudo
perpetuamente conservadas fora do céu. Ainda mais longe do inferno
era o suposto limbus patrum, também chamado “paraíso” ou “seio de
Abraão”, onde, segundo se pensava, os heróis da fé do Velho Testamento foram guardados antes da descida de Cristo ao hades. A doutrina do purgatório foi solenemente afirmado pelo Concílio de Trento em
1546. Foi em conexão com esta doutrina que a perversa prática da
venda de indulgências surgiu na igreja católica romana.

Houve oposição à idéia do purgatória perto do fim da Idade Média
por tais precursores da Reforma como ‘ Wy clif e Huss. Lutero fulminava
as práticas perniciosas que cresciam na igreja em conexão com esta
doutrina, e todos os reformadores sem exceção rejeitavam a doutrina
inteira do purgatório como sendo contrária às Escrituras. Os Artigos de
Smalcald dizem que o purgatório pertence “à geração pestilenta da
idolatria, gerada pela cauda do dragão”. E os 39 Artigos da Igreja da
Inglaterra declaram que “a doutrina católico-romana concernente ao
purgatório… é uma coisa imaginária futilmente inventada, sem fundam ento em nenhuma prova das Escrituras”.

A SEGUNDA VINDA E A
ESPERANÇA MILENIAL

Aos cristãos primitivos ensinava-se que deviam aguardar a volta de
Jesus Cristo, e é evidente, mesmo no Novo Testamento, que alguns
deles esperavam uma vinda sem demora. A interpretação literal de
Apoc. 20:1-6 levava alguns dos mais antigos Pais da Igreja a distinguirem entre uma primeira e uma segunda ressurreição, e a crerem num
reino milenar interveniente. Alguns deles pensavam com muito prazer
nestas esperanças milenares, e imaginavam os prazeres da época futura
em formas crassamente materialistas. Isto se diz especialmente de
Papias e Ireneu. Outros, tais como Bamabé, Hermas, Justínio, e
Tertuliano, embora ensinassem a doutrina, evitavam as suas extravagâncias. A doutrina milenial também achou favor com Cerinto, os
ebionitas e os montanistas. Não é, porém, correto dizer como dizem os
premilenistas, que foi geralmente aceita durante os três primeiros
séculos. A verdade do assunto é que os aderentes desta doutrina eram
de número algo limitado. Não há nenhum traço da doutrina em
Clemente de Roma, Ignácio, Policarpo, Taciano, Atenágoras, Teófilo,
Clemente da Alexandria, Orígenes, Dionísio, e outros Pais importantes
da Igreja. 
O milenismo da Igreja Primitiva gradualmente foi ultrapassado.
Enquanto os séculos passavam sem a volta de Jesus Cristo, quando as
perseguições cessavam, e quando o cristianismo recebeu uma posição
firme no Império Romano, chegando até a ser a religião do Estado, o
anseio pela volta de Jesus muito naturalmente cedeu lugar para a
adaptação da Igreja para suas tarefas atuais. A interpretação alegórica
das Escrituras, introduzida pela escola da Alexandria, e promovida
especialmente por Orígenes, esfriava as esperanças milenistas. No
Ocidente, a poderosa influência de Agostinho foi o instrumento que
tomava as esperanças da Igreja do futuro para o presente mediante a sua
identificação da Igreja e o reino de Deus. Ele ensinava o povo a
procurar o milênio na atual dispensação cristã.
Durante a Idade Média, o milenismo foi geralmente considerado
herético. É verdade que houve, aqui e ali, o brotar esporádico da
esperança milenial em certas seitas, mas estas não exerceram influência profunda. No século X houve uma expectativa geral de que o fim
do mundo se aproximava, entretanto não foi acompanhada com esperanças quiliastas, embora fosse associada com a idéia da vinda em
breve do anticristo. A arte cristã freqüentemente escolhia seus temas da
escatologia. O hino D ieslrae soava os terrores do julgamento vindouro, e os pintores representavam o fim do mundo nas suas telas,
enquanto Dante deu uma vívida descrição do inferno na sua Divina
Comédia. 
No tempo da Reforma, a doutrina do milênio foi rejeitada pelas
Igrejas Protestantes, todavia reviveu em algumas seitas, tais como
entre os anabatistas mais fanáticos e os da Quinta Monarquia. Lutero
rejeitou com desprezo “o sonho” de que haveria um reino de Cristo na
terra antes do dia do juízo. A Confissão de Augsburgo condena os “que
agora espalham opiniões judaicas, de que antes da ressurreição dos
mortos os piedosos ocuparão o império deste mundo, e os ímpios serão
suprimidos em todas as partes”. Art. XVII. A Segunda Confissão
Helvética diz: “Outrossim, condenamos os sonhos judaicos, de que
antes do dia do juízo haverá um período dourado na terra, e que os
piedosos possuirão os reinos deste mundo, sendo seus maldosos
inimigos pisoteados debaixo dos seus pés” (Cáp. XI).
Uma certa forma de milenismo surgiu, porém, no século XVII.
Havia vários teólogos luteranos e reformados que, embora rejeitassem
a idéia de um reino visível de Cristo na terra por mil anos, divulgavam
um conceito mais espiritual do milênio. O conceito que tinham do
assunto era que, antes do fim do mundo e da volta de Jesus Cristo,
haveria um período durante o qual a presença espiritual de Cristo na
Igreja seria experimentada em medida fora do comum, e que se seguiria
um despertamento religioso universal. O reino de Jesus Cristo então se
destacaria como um reino de paz e retidão. Esta foi a forma primitiva
de pós-milenismo que se distinguia do pré-milenismo.
Durante os séculos XVIII e XIX a doutrina do milênio mais uma vez
foi favorecida em certo círculos. Foi defendida pela escola de Bengel
e mais recentemente pela escola de Erlangen, tendo entre os seus
aderentes homens tais como Hofmann, Delitzsch, Auberlen, Rothe,
Elliott, Cumming, Bickersteth, os Bonar, Alford, Zahn, e outros. Há
grande diversidade de opinião quanto à ordem dos eventos finais e à
real condição das coisas durante o milênio, segundo estes pré-milenistas.
Repetidas tentativas têm sido feitas para fixar a data da volta de Cristo,
que com grande confiança é declarada iminente, mas até agora os cálculos têm falhado. Há um crença espalhada hoje em dia que a volta
de Cristo será seguida por um reino visível temporário de Cristo na
terra, contudo o peso da opinião teológica é contra isso. Nos círculos
liberais tem surgido uma nova forma de pós-milenismo. O reino
esperado será uma nova ordem social “em que prevalecerá a lei de
Cristo, e nesta situação haverá paz, justiça e o glorioso desabrochar das
atuais forças espirituais.” É o que Rauschenbusch tem em mente
quando diz: “Precisamos de uma restauração da esperança milenial”.
A Theology fo r the Social Gospel, p.224. Até aos dias atuais, porém, a
doutrina do milenismo ainda não foi incorporado em qualquer Confissão, e portanto ainda não pode ser considerado um dogma da Igreja. 

conteúdo retirado do livro: A Historia das Doutrinas Cristas – Louis-Berkhof

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