A DOUTRINA DA TRINDADE

Louis-Berkhof


A CONTROVÉRSIA TRINITARIANA

I. PANO DE FUNDO 

A controvérsia trinitariana, que chegou ao clímax no conflito entre
Ário e Atanásio, teve suas raízes no passado. Os Pais da Igreja
Primitiva, conforme vimos, não tinham idéias claras sobre a Trindade.
Alguns deles concebiam o Logos como razão impessoal, que se tomara
pessoal quando da criação; outros, porém, reputavam-nO pessoal e coL-terno com o Pai, participante da essência divina, embora Lhe atribuíssem certa subordinação ao Pai. O Espírito Santo não ocupava lugar
importante nas discussões deles. Aludiam a Ele primariamente em
conexão com a obra de redenção aplicada aos corações e à vida dos
crentes. Alguns consideravam-nO subordinado, não somente ao Pai, e
sim também ao Filho. Tertuliano foi o primeiro a declarar claramente
a tri-personalidade de Deus e a manter a unidade substancial das três
Pessoas. Mas não chegou a exprimir de forma clara a doutrina da
Trindade. 
Entrementes, entrou em cena o monarquianismo com sua ênfase
sobre a unidade de Deus e a verdadeira deidade de Cristo, ficando assim
negada a Trindade no sentido mais próprio do termo. Tertuliano e
I lipólito combateram tais pontos de vista no Ocidente e, no Oriente,
Orígenes desferiu contra eles um golpe decisivo. Defendiam esses três
a posição trinitariana, conforme ela é expressa no Credo dos Apóstolos. Entretanto, nem mesmo a fraseologia de Orígenes acerca da
doutrina da Trindade se mostrou inteiramente satisfatória. Ele se
aferrou à idéia de que o Pai e o Filho são ambos hipóstases divinas ou
substâncias pessoas, porém não teve pleno êxito ao tentar fazer uma
exposição bíblica sobre a relação das três Pessoas para com a essência
mia da Deidade. Apesar de ter sido o primeiro a explicar o relacionamento entre o Pai e o Filho mediante o emprego da idéia da geração
i-k-rna, definiu tal coisa como se ela envolvesse a subordinação da
segundunda Pessoa à primeira no atinente à essência. O Pai teria transmilido ao Filho somente uma espécie secundária de divindade, podendo ela ser chamada Theos, mas não Ho Theos. E algumas vezes ele chama
o Filho de Theos Deuteros. Esse era o mais radical defeito da doutrina
da Trindade em Orígenes, e isso forneceu um ponto de apoio para Ário.
Outro defeito menos fatal se acha em sua alegação de que a geração do
Filho não foi um ato necessário do Pai, mas antes, procedeu da Sua
vontade soberana. Ele teve a cautela, porém, de não trazer ao quadro
a idéia de sucessão temporal. Em sua doutrina do Espírito Santo ele se
afastou ainda mais do que ensinam as Escrituras. Não só subordinava
o Espírito Santo ao Filho, como também o contava entre as coisas
criadas pelo Filho. Uma de suas declarações parece mesmo subentender que o Espírito Santo era mera criatura.

2. NATUREZA DA CONTROVÉRSIA 

(a)Ario e o arianismo. O grande conflito trinitariano geralmente se
chama de controvérsia ariana, por ter sido motivada pelas idéias antitrinitarianas de Ário, um presbítero de Alexandria, o qual sabia debater
com maestria, embora não fosse um espírito profundo. Sua idéia
dominante era o princípio monoteísta do monarquianismo, isto é, que
só existe um Deus não-gerado, um único Ser não-originado, sem
qualquer começo de existência. Fazia a distinção entre o Logos, que
seria imanente em Deus e consistiria apenas de uma energia divina, e
o Filho ou Logos que finalmente Se encarnara. Este último tivera
começo: foi gerado pelo Pai; e isso queria dizer, no vocabulário de
Ário, que Ele fora criado. Teria sido criado do nada, antes de haver
mundo, razão exata pela qual não seria Ele eterno e nem teria a essência
divina. Tendo sido o maior e primeiro de todos os seres criados, teria
sido trazido à existência para que, por meio dEle, fosse criado o mundo.
Portanto, também seria um ser mutável, embora tivesse sido divinamente escolhido por causa de Seus méritos pré-conhecidos, sendo
intitulado Filho de Deus em vista de Sua glória futura. Ainda, em
virtude de Sua adoção como Filho, cabe-Lhe o direito de ser venerado
pelos homens. Ário buscava apoio escriturístico para isso naquelas
passagens que parecem apresentar o Filho como inferior ao Pai, a
saber,Prov. 8:22(Sept.);M at.28:18;M ar. 13:32;Luc. 18:19; Jo. 5:19;
14:28; 1 Cor. 15:28. 
(b) Oposição ao arianismo. Ário foi contestado, primeiramente
pelo seu próprio bispo, Alexandre, que contendia pela verdadeira e
devida deidade do Filho, ao mesmo tempo que mantinha o ensino da
filiação eterna por geração. No decorrer do tempo, entretanto, seu real
oponente mostrou-se ser o arqui-diácono de Alexandria, o grande  Atanásio, que figura nas páginas da história como um poderoso,
inflexível e resoluto campeão da verdade. Seeberg atribui sua grande
força a três coisas: 
(1) a notável estabilidade e genuinidade de seu
caráter; 
(2) o firme alicerce sobre o qual ele se firmava quanto ao
conceito da unidade de Deus, o que o isentava da idéia de subordinação
que era tão comum em seus dias; e, 
(3) o tato infalível com que ensinava
os homens a reconhecerem a natureza e a significação da Pessoa de
Cristo. Sentia ele que considerar Cristo uma criatura era negar que a fé
nEle leva os seres humanos à união salvadora com Deus.

Atanásio salientava bem a unidade de Deus e insistia em verbalizar
a doutrina da Trindade de um modo que não pusesse em perigo essa
unidade. Se o Pai e o Filho são da mesma essência divina, por outro lado
não há divisão ou separação no Ser essencial de Deus, e assim é errôneo
falar de um Theos Deuteros. 
No entanto, ao frisar a unidade de Deus,
também reconhecia três hipóstases distintas, três substâncias em Deus.
lile se recusava a crer no Filho criado antes do tempo que Ário
postulava, e defendia a existência independente e eternamente pessoal
do Filho. Ao mesmo tempo, ele lembrava que as três hipóstases em
Deus não podem ser tidas como separadas sob hipótese alguma, pois
isso levaria ao politeísmo. Segundo ele dizia, tanto a unidade de Deus
como as distinções em Seu Ser poderiam ser melhor expressas pelos
termos “unidade de essência”. 
Isso exprime, de forma clara e inequívoca, a idéia de que o Filho é da mesma substância que o Pai, embora
também subentenda que os dois podem diferir noutros aspectos, como,
I >or exemplo, na subsistência pessoal. 
Tal como Orígenes, ele ensinava
que o Filho fora gerado por geração, mas, diferente daquele, descrevia
essa geração como um ato interno e, por conseguinte, necessário e
eterno, da parte de Deus, e não como ato que simplesmente dependia
de Sua soberana vontade.
Não foi apenas a necessidade de coerência lógica que inspirara a
Atanásio e determinara sua posição teológica. O fator controlador em
sua argumentação da verdade foi de caráter religioso. As suas convicções soteriológicas, naturalmente, geraram suas doutrinas teológicas.
Sua posição fundamental era que a união com Deus é imprescindível
à salvação, e que nenhum criatura, senão quem de Si mesmo é Deus tem
0 poder de unir-nos a Deus. 
Portanto, é conforme diz Seeberg:
“Somente se Cristo é Deus, no sentido mais pleno da palavra, e sem
qualquer qualificativo, é que Deus entrou na humanidade, e somente
então foram trazidos com certeza ao homem o companheirismo com
1 )eus, o perdão dos pecados, a verdade de Deus, e a imortalidade”. Hist.
ofD oct. I, pág. 211. 


 3. CONCÍLIO DE NICÉIA

O Concílio de Nicéia foi convocado em 325 d.C. para solucionar a
disputa. A questão era nítida, conforme se verá em breve narrativa. Os
arianos repudiavam a idéia de uma geração não-temporal, eterna, ao
passo que Atanásio assim afirmava. Os arianos asseveravam que o
Filho fora criado do não-existente, enquanto que Atanásio sustentava
que Ele fora gerado da essência do Pai. Os arianos mantinham que o
Filho não era da mesma substância do Pai, mas Atanásio dizia ser Ele
homoousios com o Pai.
Além das partes contendoras, havia um grande partido intermediário, que realmente constituía a maioria, sob a liderança de Eusébio de
Cesaréia, o historiador da Igreja, sendo que aquele partido também era
conhecido como partido origenístico, pois se fundamentava sobre os
princípios de Orígenes. Esse partido tendia em favor de Ário, pois
opunha-se à doutrina que o Filho é da mesma substância com o Pai
(homoousios). 
Ele propusera uma declaração, redigida previamente
por Eusébio, que concordava em tudo com o partido de Alexandre e
Atanásio, com a única exceção da doutrina acima nomeada; e sugeria
que a palavra homoousios fosse substituída pelo termo homoiousios,
para que ensinasse ser o Filho de substância similar à do Pai. 
Após
considerável debate, finalmente o Imperador lançou o peso de sua
autoridade na balança, dando a vitória ao partido de Atanásio. O
concílio adotou a seguinte declaração a respeito da questão em pauta:
“Cremos em um Deus, o Pai Todo-Poderoso, Criador das coisas
visíveis e invisíveis. E em um Senhor Jesus Cristo, gerado, não criado,
sendo da mesma substância (homoousios) com o Pai”, etc. 
Foi uma
declaração inequívoca. Não se poderia torcer o vocábulo homoousios
para que significasse outra coisa qualquer do que o fato de que a
essência do Filho é idêntica à do Pai. Situava o Filho no mesmo nível
com o Pai, como um Ser incriado, e reconhecia-o como autotheos. 

4. CONSEQÜÊNCIAS 

(a) Natureza insatisfatória da decisão. A decisão do concílio não
pôs fim à controvérsia; antes, foi seu começo. Uma solução imposta à
Igreja pela forte mão imperial não poderia satisfazer — posto que foi
de duração incerta — pois fez com que a determinação da fé cristã
dependesse do capricho do Imperador e mesmo das intrigas da corte. 
O próprio Atanásio, embora vitorioso, ficou insatisfeito com tal
maneira de solucionar as disputas eclesiásticas. Ele teria preferido
convencer ao outro partido com a força de seus argumentos. 
O resultado provou claramente que, conforme andavam as coisas, uma
111 udança no Imperador, uma atitude modificada, ou mesmo um suborno, poderiam alterar o aspecto todo da controvérsia. 
O partido em
ascendência subitamente poderia sofrer eclipse. E foi exatamente isso
que sucedeu repetidamente na história subseqüente. 
(b) Ascendência temporária do semi-arianismo na Igreja Oriental.
A grande figura central na controvérsia trinitariana pós-nicena foi
Atanásio. Em muito ele foi o maior homem de sua época, um erudito
agudo, dotado de caráter forte, corajoso à altura das suas convicções e
pronto a sofrer pela verdade. 
A Igreja gradualmente se foi tomando
ariana, mas, predominantemente, semi-ariana. E os imperadores geralmente se puseram ao lado da maioria, a ponto de ter-se dito: “Unus
Athanasius contra orbem” (um Atanásio contra o mundo). Por cinco
vezes esse digno servo de Deus foi mandado ao exílio, sendo substituído no ofício por infames sicofantas, que foram uma desgraça para a
IgreJa.
A oposição ao Credo Niceno estava dividido em diferentes partidos.
Diz Cunningham: “Os arianos mais ousados e honestos diziam que o
Filho era heteroousios, de substância diferente da do Pai; outros diziam
que Ele era anomoios, diferente do Pai; e alguns, que geralmente eram
considerados semi-arianos, admitiam ser Ele homoiousios, de igual
substância com o Pai; todavia todos eles, em comum, recusavam-se a
aceitar a fraseologia nicena, porquanto se opunhão à doutrina nicena da
a utêntica e apropriada divindade do Filho, vendo e sentindo que aquela
fraseologia a expressava de maneira acurada e inequívoca, embora
algumas vezes declarassem aduzir outras objeções contra seu uso”
(.Historical Theology I, pág. 290). 
O semi-arianismo prevaleceu no
segmento oriental da Igreja. O Ocidente, sem embargo, tomou uma
posição diferente sobre a questão, mostrando-se leal ao Concílio de
Nicéia. Isso pode ser explicado principalmente pelo fato que, se o
C3ri ente era dominado pela idéia de subordinação postulada por Orígenes,
0 Ocidente era primariamente influenciado por Tertuliano, tendo
desenvolvido um tipo de teologia m aisem consonância com o ponto de
vista de Atanásio. 
Em adição a isso, contudo, deve-se levar em conta
as rivalidades entre Roma e Constantinopla. Quando Atanásio foi
banido do Oriente, foi acolhido com braços abertos no Ocidente; e os
concílios de Roma (341) e Sárdica (343) endossaram incondicionalmente a sua doutrina.
A causa de Atanásio foi enfraquecida no Ocidente, porém, com a
ascensão de M arcelo de Ancira à fileira dos defensores da teologia
nicena. Ele recuou para a velha distinção entre o Logos eterno e
1 m | lessoal, imamente em Deus, que se revelara como energia divina na obra da criação, e o Logos personalizado quando da encarnação; e
também negava que o termo “geração” pudesse ser aplicado ao Logos
preexistente, restringindo assim o nome “Filho de Deus” ao Logos
encarnado; e ainda afirmava que, no fim de Sua vida encarnada, o
Logos teria retomado à Sua relação pré-terrena com o Pai. Sua teoria
aparentemente justificava os origenistas ou eusebianos, lançando a
pecha de sabelianismo sobre os oponentes destes; e assim foi instrumento que abriu mais ainda a brecha entre o Oriente e o Ocidente.
Vários esforços foram feitos para sanar a separação. Concílios
foram convocados em Atioquia que aceitaram as definições nicenas,
em bora com duas im portantes exceções. A sseveravam que o
homoiousios e a geração do Filho decorreram de um ato da vontade do
Pai. Mas isso, naturalmente, não podia satisfazer ao Ocidente. Seguiram-se novos sínodos e concílios, nos quais os eusebianos inutilmente
buscaram o reconhecimento ocidental para a deposição de Atanásio e
esboçaram outros credos de tendências reconciliadoras. Todavia tudo
foi em vão, até que Constâncio se tomou único imperador, o qual,
manobrando astutamente e pela força, conseguiu alinhar os bispos
ocidentais com os eusebianos, por ocasião dos concílios de Aries e
Milão (355).
(c) Mudança da maré. Uma vez mais a vitória mostrou-se perigosa
para uma causa má. De fato, foi o sinal para a dissolução do partido antiniceno. Os elementos heterogêneos que o compunham se tinham
unificado em sua oposição ao partido niceno. Contudo, ao ser diminuído a pressão extema, a falta de unidade intema deles tomou-se cada
vez mais evidente. Os arianos e semi-arianos não concordavam entre
si, e estes últimos não eram unidos. Por ocasião do Concílio de
Sirmium (357), foi feita a tentativa de unir todas as divisões, eliminando-se o emprego de termos como ousia, homoousios e homoiousios,
por pertencerem a questões fora do conhecimento humano. No entanto
as coisas já tinham ido longe demais para se chegasse a um acordo. Os
autênticos arianos por essa altura mostravam sua legítima bandeira, e
assim lançaram a maior parte dos conservadores semi-arianos para o
campo niceno.
Nesse interim, surgira um segundo partido niceno, composto de
discípulos da escola origenista, entretanto, homens, em débito para
com Atanásio e o Credo Niceno quanto a uma mais perfeita interpretação da verdade. Os maiores entre eles foram os três capadócios,
Basílio o Grande, Gregório de Nissa e Gregório Nazianzeno. Esses
viam como fonte de confusão o uso do vocábulo hypostasis, por ser
sinônimo tanto de ousia (essência) quanto de proposon (pessoa), e
assim limitaram seu uso à designação da subsistência pessoal do Pai e do Filho. Ao invés de terem como ponto de partida a única ousia divina,
conforme fizera Atanásio, partiram das três hipóstases pessoas — no
Ser divino, procurando sujeitá-las ao conceito da divina ousia. Os dois
Gregórios compararam a relação das Pessoas da deidade do Ser divino
com a relação de três homens para com a sua comum humanidade. E
Ibi exatamente com a ênfase que deram às três hipóstases do Ser divino
que livraram a doutrina nicena das manchas do sabelianismo aos olhos
dos eusebianos, e que a personalidade do Logos pareceu estar suficientemente salvaguardada. Ao mesmo tempo, mantiveram incansavelmente a unidade dessas três Pessoas na Deidade, ilustrando-a de várias
maneiras. 
(d) A disputa em torno do Espírito Santo. Até esse tempo não se
linham feito intensas considerações sobre o Espírito Santo, embora
houvessem sido expressadas opiniões discordantes sobre o assunto.
Ário afirmara que o Espírito Santo fora o primeiro ser criado pelo Filho,
opinião que se harmonizava bem como a de Orígenes. Atanásio dizia
tl Lie o Espírito Santo é da mesma essência que o Pai, mas o Credo
Niceno contém apenas uma declaração indefinida: “E (eu creio) no
Espírito Santo”. Os capadócios seguiram as pisadas de Atanásio e
defendiam vigorosamente o homoousios do Espírito Santo. Hilário de
Poitiers, no Ocidente, afirmava que o Espírito Santo, visto que perscrutava as profundezas de Deus, não poderia ser estranho à essência
divina. Opinião inteiramente diversa era expressa por Macedônio,
hispo de Constantinopla, o qual afirmava que o Espírito Santo é
criatura subordinada ao Filho; porém sua opinião era geralmente
reputada herética, e seus seguidores receberam o apelido de
“pneumatomaquianos” (de pneuma, espírito, e machomai, falar mal
contra). Quando se reuniu o Concílio de Constantinopla, em 381 d .C.,
ele declarou sua aprovação ao credo Niceno e, sob a orientação de
Gregório Nazianzeno, aceitou a seguinte fórmula concernente ao
Espírito Santo: “E cremos no Espírito Santo, o Senhor, o Doador da
vida, que procede do Pai, que será glorificado com o Pai e com o Filho,
r. que fala através dos profetas”.
(e) Complementação da doutrina da Trindade. A declaração do
( ’oncílio de Constantinopla mostrou-se insatisfatória em dois pontos: 
( I) não se usou o termo homoousios, de modo que a consubstancialidade
do Espírito Santo com o Pai não foi diretamente asseverada; e 
(2) a
i viação entre o Espírito Santo e as outras duas Pessoas não foi definida.
I ;oi feita a declaração que o Espírito Santo procede do Pai, contudo não
loi negado nem afirmado que Ele também procede do Filho. Não houve
total unanimidade nesse ponto. Dizer que o Espírito Santo procede
somente do Pai parece negar a unidade essencial do Filho com o Pai; e dizer que Ele também procede do Filho parece sujeitar o Espírito
Santo a uma posição mais dependente que o Filho, além de infringir
contra Sua deidade. Atanásio, Basílio e Gregório de Nissa asseveravam que o Espírito Santo procede do Pai, sem oporem de modo algum
a doutrina que Ele procede, igualmente, do Filho. Todavia, Epifânio e
M arcelo de Ancira afirmavam positivamente esta doutrina. 
Os teólogos ocidentais geralmente diziam que o Espírito Santo
procedia tanto do Pai quanto do Filho; e no sínodo de Toledo, no ano
de 589 d.C., foi adicionado o fam oso “filioque” ao sím bolo
constantinopolitano. No Oriente, a formulação final da doutrina foi
dada por João Damasceno. Segundo ele, há apenas uma essência
divina, mas três pessoas ou hipóstases. Devem elas ser reputadas como
realidades no Ser divino, embora não relacionadas umas às outras
como o estão três homens. São um em todos os aspectos, menos em seu
modo de existência. O Pais Se caracterizaria por “não-geração”, o
Filho por “geração”, e o Espírito Santo por “procedência”. O relacionamento entre as Pessoas é descrito como “interpenetração mútua” ou
“circumincessão”, sem co-mistura. Apesar de rejeitar de modo absoluto a idéia de subordinação, ainda assim João Damasceno referia-se
ao Pai como a fonte da Deidade, apresentando o Espírito como
procedente do Pai, através do Logos. Ora, isso constitui uma relíquia
do subordinacionismo grego. O Oriente jam ais aceitou o “filioque”,
acrèscentado quando do sínodo de Toledo. Foi a rocha contra a qual se
partiram em dois o Oriente e o Ocidente.
A concepção ocidental da Trindade chegou à sua declaração final na
grande obra de Agostinho, De Trinitate. Ele também ressaltou a
unidade de essência e a trindade de Pessoas. Cada uma dessas três
Pessoas possui a essência inteira, e nessa proporção é idêntica a cada
uma das outras duas Pessoas. Não se assemelham a três pessoas
humanas, cada uma das quais possui somente uma parte da natureza
humana genérica. Outrossim, uma nunca está e nunca pode estar sem
a outra; a relação de dependência entre elas é mútua. A essência divina
pertence a cada uma delas de conformidade com um diferente ponto de
vista, como gerador, gerado, ou existente por meio de inspiração. Entre
as três hipóstases há uma relação de mútua interpenetração e interhabitação. O vocábulo “pessoa” não satisfaz a Agostinho como designação do relacionamento em que existem os três entre si. Contudo, ele
continua a empregá-lo, conforme diz, “não a fim de expressá-lo (o
relacionamento), porém a fim de não ficar calado”. Nessa concepção
da Trindade o Espírito Santo é naturalmente concebido como quem
procede, não somente do Pai, e sim também do Filho.

Perguntas para estudo posterior

Quais pontos de vista diferentes do Logos e de Seu relacionamento
com o Pai prevaleciam antes do Concílio de Nicéia? Em que a doutrina
de Orígenes sobre a Trindade se compara com a de Tertuliano? Em
quais pontos sua doutrina era defeituosa? Que idéia formava Ário de
Deus? Como derivou daí a sua idéia de Cristo? A quais passagens das
Escrituras ele apelava? Qual foi o verdadeiro ponto a ser debatido no
Concílio de Nicéia? Qual era o verdadeiro interesse de Atanásio sobre
a questão? Qual o seu conceito da redenção do homem? Por que era
mister usar o termo homoousios, em lugar de homoiousiosl Por que os
semi-arianos se opunham a seu uso? No que detectavam nele o
sabelianismo? Que contribuição valiosa fizeram os capadócios à
discussão? Como devemos julgar o anátema aposto à parte final do
Credo Niceno? Como foi resolvida a questão do relacionamento entre
o Espírito Santo e as outras Pessoas no Ocidente e no Oriente? Por que
o Oriente se mostrou inalteravelmente oposto ao famoso termo
“fílioque”? A declaração final da doutrina da Trindade, feita por João
Damasceno, difere muito da de Agostinho?

conteúdo retirado do livro: A Historia das Doutrinas Cristas – Louis-Berkhof

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