COMO EVITAR OS TRANSTORNOS MENTAIS

 

Gary R. Collns



Alguns meses após ter sido preso por tentar matar o presidente, o jovem John Hinckley
tentou o suicídio. Não era a primeira tentativa, mas desta vez quase deu certo. E lá estava sua família tendo que enfrentar de novo a incerteza, as longas horas de espera, o constrangimento e os “porquês”. Mais uma vez, a família se defrontava com o tormento da doença mental e com as longas conversas sobre o que poderia ter sido feito para evitar tudo aquilo.
Nos últimos anos, a prevenção dos transtornos mentais e do suicídio tem tido uma
importância cada vez maior54. O trabalho de prevenção geralmente se concentra em aspectos como proporcionar tratamento físico, esclarecer a população, ajudar as pessoas da comunidade a identificar possíveis problemas, e dar apoio e orientação especiais a grupos de alto risco, tais como adultos com pais alcoólatras e filhos de lares desfeitos. No mundo inteiro, existem linhas diretas, grupos de apoio e centros de prevenção de suicídios, mas a eficácia destes serviços ainda é incerta55. É difícil motivar as pessoas para que se envolvam na luta contra um problema que ainda não surgiu, e os efeitos da prevenção são quase impossíveis de medir.

O psicólogo George Albee fala resumidamente sobre a prevenção:


A maioria dos grandes flagelos que afligiram a humanidade ao longo dos séculos foram
eliminados através de uma prevenção primária eficiente – trabalhando com grandes
grupos de pessoas ainda não atingidas por uma doença, a fim de eliminar fontes de
infecção ou contágio e melhorar a resistência à enfermidade […].
No caso dos transtornos mentais, os elementos chaves não são bactérias, vírus ou
outros agentes patogênicos orgânicos, mas sim um alto nível de estresse, seja na vida
atual ou no passado do indivíduo, que podem ser gerados por muitos fatores, entre os
quais poderíamos citar graves problemas conjugais, desemprego involuntário, confusão
sexual e culpa, ou um histórico de negligência, abusos físicos, exploração sexual e falta
de afeição durante a infância.

Para reduzir a incidência de transtornos mentais através da prevenção, é necessário
reduzir problemas em três áreas (fatores orgânicos, estresse e várias formas de exploração)
e aumentar os recursos em três outras (técnicas para enfrentar as situações, autoestima
e grupos de apoio). Alguns exemplos de ações preventivas em cada uma destas áreas
são: reduzir os problemas orgânicos, através de uma nutrição adequada durante a
gravidez, e diminuir o nível de chumbo no meio ambiente; reduzir o estresse através da
garantia de emprego e de uma melhor assistência aos idosos, inclusive na questão da
moradia; diminuir os abusos de crianças e a exploração de mulheres e minorias de
todos os tipos; melhorar a competência através de um treinamento específico para
aumentar a autoconfiança e de cursos de preparação para o casamento; aumentar a
autoestima, fazendo com que a imprensa retrate de forma mais positiva os idosos, os
deficientes, as mulheres e as minorias; e o que talvez seja o mais importante: estimular
o crescimento de movimentos de autoajuda e de grupos de apoio, tais como os
programas que empregam pessoas para auxiliar indivíduos incapacitados no serviço de
casa, os serviços de entrega de refeições em domicílio, as instituições que cuidam dos
doentes durante o dia para que seus responsáveis possam trabalhar e os programas em
que uma pessoa um pouco mais velha atua como mentora de uma mais jovem,
aconselhando e ensinando […].

As pesquisas deixaram bem claro que as pessoas que recebem apoio de
organizações como essas apresentam uma situação emocional muito melhor do que
aquelas que têm de enfrentar seus problemas sozinhas.
Esta é uma proposta revolucionária, que envolve a intervenção em todos os níveis da
sociedade. Porém, a maioria dos conselheiros não tem possibilidades, recursos e tempo
disponível para desenvolver um programa como este. Apesar de defender a “prevenção através da transformação social”, Albee reconhece que é “uma esperança pálida, mas persistente”.
Nenhuma pessoa, clínica de aconselhamento, comunidade ou igreja pode fazer tudo sozinha,
mas cada um de nós pode fazer alguma coisa para impedir que os problemas fiquem piores do que estão. Algumas pessoas podem trabalhar nos programas de prevenção das drogas ou nos centros de prevenção de suicídios. Outros, podem se dedicar ao trabalho de apoio aos casais, ao aconselhamento de pessoas que estão para se aposentar ou à recuperação emocional dos divorciados. Outros, ainda, podem encorajar a criação de grupos de apoio para auxiliar famílias de suicidas, pais de crianças deficientes, adolescentes grávidas solteiras, filhos de alcoólatras, ou outras pessoas que podem acabar desenvolvendo transtornos emocionais mais graves.
A igreja tem um papel a desempenhar neste esforço. Jesus demonstrou compaixão, cuidado
e preocupação com questões sociais, embora se dedicasse a pregar o evangelho e chamar o
povo ao arrependimento. Será que não podemos encontrar meios de cumprir a Grande
Comissão ao mesmo tempo em que cuidamos dos necessitados, inclusive dos mentalmente
perturbados e dos que são particularmente suscetíveis aos transtornos mentais?


CONCLUSÕES SOBRE OS TRANSTORNOS

MENTAIS E COMPORTAMENTAIS

Em meados da década de 60, as autoridades federais e os especialistas em saúde mental
iniciaram um ambicioso programa para acabar com os grandes hospitais psiquiátricos e
transferir os pacientes para centros comunitários de tratamento, mais humanos e acessíveis.
Apesar de criativa, parece que a ideia não deu certo. Os hospitais foram esvaziados, mas
não havia condições de proporcionar moradia, assistência no período de transição e
treinamento profissional para poder integrar os pacientes na sociedade. Por causa disso,
um número cada vez maior de pacientes acabou indo para as ruas e, ao que parece, nós
criamos uma nova classe de necessitados: os doentes mentais sem teto.
Contudo, existe uma razão para termos esperança. Apesar do grande número de casos
de transtornos mentais e das limitadas condições de tratamento, as pessoas melhoram.
No final da década de 1950, pesquisadores selecionaram uma amostra entre os pacientes crônicos mais graves (o último terço da escala) do Hospital Estadual de Vermont e colocaram essas pessoas num programa de reabilitação. Ao final, todos voltaram para a comunidade. Decorridos mais de trinta anos, verificou-se que 68 por cento dos 168 ex-pacientes que ainda estavam vivos desempenhavam normalmente suas funções dentro da sociedade e não apresentavam evidência de transtornos mentais. Os pesquisadores concluíram que “contrariando as expectativas de piora e deterioração nos casos de esquizofrenia ou outras doenças psiquiátricas graves e crônicas, percebeu-se que os sintomas podem ser minimizados com o tempo e o funcionamento social pode ser restaurado”’ 

Jesus afirmou, certa vez, que os pobres sempre estariam entre nós. Talvez possamos
dizer o mesmo a respeito das pessoas com transtornos mentais. Entretanto, da mesma forma
que o evangelho pode alcançar os pobres (e os ricos), a Palavra de Deus pode trazer consolo
e orientar tanto os indivíduos mentalmente perturbados quanto os saudáveis. Ajudar as
pessoas que têm transtornos mentais e suas famílias é um dos maiores desafios na vida de
um conselheiro cristão..

conteúdo retirado do livro: ACONSELHAMENTO CRISTÃO Gary R. Collns

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