A história completa da Copa em que a Alemanha Ocidental conquistou seu terceiro título, a Itália encantou com as "Noites Mágicas" de Schillaci, e o Brasil, sob o comando de Lazaroni, foi eliminado pela Argentina em um jogo polêmico.
A queda do Muro de Berlim, a reunificação alemã e o futebol como palco de transformações
O cenário mundial – Em 1990, o mundo vivia um momento de profundas transformações. A Guerra Fria chegava ao fim, e a Alemanha estava prestes a ser reunificada. O Muro de Berlim havia caído em novembro de 1989, e a Alemanha Ocidental e a Alemanha Oriental estavam em processo de unificação. A Copa do Mundo na Itália seria o último grande torneio disputado pela Alemanha Ocidental antes da reunificação.
O Brasil em busca do título – O Brasil vivia um jejum de 20 anos sem títulos mundiais, desde 1970. A seleção havia vencido a Copa América de 1989, quebrando um jejum de 40 anos na competição continental[reference:0], e chegava à Itália com a expectativa de encerrar o tabu. O técnico Sebastião Lazaroni havia assumido o comando após a saída de Carlos Alberto Silva[reference:1].
O futebol defensivo – A Copa de 1990 ficou marcada pelo futebol pragmático e defensivo. O medo de perder superou a ousadia ofensiva, resultando na menor média de gols da história dos Mundiais (apenas 2,21 por partida) e em um número recorde de cartões vermelhos e disputas por pênaltis[reference:2]. Essa postura irritou profundamente os torcedores e forçou a FIFA a mudar as regras do esporte nos anos seguintes[reference:3].
A segunda Copa na Itália, após 56 anos
A escolha da Itália – A Itália foi escolhida como sede da Copa de 1990 em 1984, durante o Congresso da FIFA em Zurique. O país já havia sediado o torneio em 1934, e se tornou o segundo país a sediar uma Copa pela segunda vez, depois do México (1970 e 1986)[reference:4].
As cidades-sede e estádios – Foram 12 estádios em 12 cidades que receberam os 52 jogos da Copa do Mundo de 1990:
A música "Un'estate italiana" – A Copa de 1990 foi embalada pela canção "Un'estate italiana", interpretada por Gianna Nannini e Edoardo Bennato[reference:7]. A música se tornou um dos hinos mais icônicos da história das Copas.
24 equipes em busca da glória
Participantes – 24 seleções disputaram a Copa de 1990. O torneio contou com a participação de 116 países nas eliminatórias[reference:8].
Estreantes – Três países fizeram sua primeira participação em Copas: Emirados Árabes Unidos, Estados Unidos (que sediariam a Copa de 1994) e Costa Rica.
Ausências de peso – A França, semifinalista em 1982 e 1986, não se classificou. A Inglaterra participou, mas foi eliminada nas semifinais pela Alemanha Ocidental nos pênaltis.
24 seleções, seis grupos e mata-mata
O regulamento – A Copa de 1990 manteve o formato adotado em 1982 e 1986. As 24 seleções foram divididas em seis grupos de quatro equipes na primeira fase.
Classificação – As duas melhores de cada grupo avançaram às oitavas de final, além dos quatro melhores terceiros colocados. A partir daí, o torneio seguiu em sistema eliminatório até a final.
Média de gols recorde – A Copa de 1990 detém o recorde de menor média de gols por partida na história dos Mundiais: apenas 2,21 gols por jogo[reference:10][reference:11].
100% na primeira fase, mas eliminada pela Argentina nas oitavas
O Brasil chegou à Itália com uma geração talentosa, comandada pelo técnico Sebastião Lazaroni. A seleção utilizou pela primeira vez em sua história o esquema 3-5-2[reference:13], focado na força física e na destruição de jogadas[reference:14]. A campanha foi perfeita na primeira fase, com três vitórias, mas o Brasil foi eliminado nas oitavas de final pela Argentina, em um jogo polêmico[reference:15].
Brasil 2×1 Suécia – Estreia com vitória. Careca marcou os dois gols da seleção[reference:19].
Brasil 1×0 Costa Rica – Vitória magra, com gol de Müller[reference:20].
Brasil 1×0 Escócia – Mais uma vitória por 1×0, com gol de Müller[reference:21]. O Brasil terminou a primeira fase com 100% de aproveitamento, três vitórias e apenas um gol sofrido[reference:22].
Brasil 0×1 Argentina – O gol da eliminação saiu aos 35 minutos do segundo tempo, em uma jogada de Maradona, que arrancou do meio-campo e serviu Caniggia, que driblou Taffarel e marcou[reference:24]. O Brasil foi eliminado nas oitavas de final, em uma das campanhas mais criticadas de sua história[reference:25].
Os craques que brilharam na Itália
Lothar Matthäus – O cérebro da Alemanha, atuando como meia ou líbero, era o responsável pela organização da equipe[reference:27]. Marcou 4 gols na Copa, incluindo o gol da vitória sobre a Tchecoslováquia nas quartas de final[reference:28]. Foi eleito o melhor jogador do planeta pela revista Word Soccer em 1990[reference:29].
Andreas Brehme – O herói da final, marcou o gol do título contra a Argentina, de pênalti, aos 39 minutos do segundo tempo[reference:30].
Salvatore "Totò" Schillaci – O artilheiro e melhor jogador da Copa, com 6 gols[reference:31]. Começou o torneio como reserva e se tornou o único jogador da história a começar uma Copa no banco e terminar como artilheiro[reference:32]. Seus gols deram à Itália o terceiro lugar[reference:33].
Walter Zenga – O goleiro italiano bateu o recorde de invencibilidade em Copas, ficando 517 minutos sem sofrer gols[reference:34].
Diego Maradona – O craque argentino, já em decadência física, ainda teve lampejos de genialidade, como o passe para o gol de Caniggia contra o Brasil[reference:35].
Sergio Goycochea – O goleiro argentino foi o herói dos pênaltis, defendendo cobranças nas quartas contra a Iugoslávia e na semifinal contra a Itália[reference:36].
Alemanha e Argentina se reencontram na decisão
A Alemanha Ocidental passou pela primeira fase com 2 vitórias (Iugoslávia e Emirados Árabes) e 1 empate (Colômbia)[reference:37]. Nas oitavas, venceu a Holanda por 2×1. Nas quartas, venceu a Tchecoslováquia por 1×0. Na semifinal, venceu a Inglaterra nos pênaltis (4×3), após empate em 1×1 no tempo normal.
A Argentina passou pela primeira fase com 1 vitória (União Soviética), 1 empate (Romênia) e 1 derrota (Camarões). Nas oitavas, venceu o Brasil por 1×0. Nas quartas, venceu a Iugoslávia nos pênaltis (3×2), após empate em 0×0. Na semifinal, venceu a Itália nos pênaltis (4×3), após empate em 1×1.
8 de julho de 1990 – O tricampeonato alemão
8 de julho de 1990 – Estádio Olímpico, Roma. Público de 73.603 espectadores[reference:40][reference:41]. A final colocou frente a frente a Alemanha Ocidental, em busca do terceiro título, e a Argentina, que sonhava com o bicampeonato.
O jogo – A final foi decidida por um pênalti polêmico aos 39 minutos do segundo tempo, marcado pelo árbitro mexicano Edgardo Codesal[reference:42][reference:43]. Andreas Brehme converteu a cobrança e deu o título à Alemanha[reference:44].
Recordes da final – A Argentina se tornou a primeira seleção a não marcar gols em uma final de Copa[reference:45]. Também foi a primeira finalista a ter dois jogadores expulsos (Monzón e Dezotti)[reference:46]. Foi a primeira vez que uma seleção europeia derrotou uma sul-americana em uma final de Copa[reference:47].
O título – A Alemanha Ocidental venceu por 1×0 e conquistou o terceiro título mundial de sua história (1954, 1974 e 1990)[reference:48].
A Alemanha entra para o clube dos tricampeões
O título inédito em 16 anos – A Alemanha Ocidental conquistou seu terceiro título mundial, após 16 anos do último, em 1974. O país se tornou a terceira seleção tricampeã mundial, ao lado do Brasil (1958, 1962, 1970) e da Itália (1934, 1938, 1982)[reference:49].
O técnico Franz Beckenbauer – O Kaiser, que foi campeão como jogador em 1974, tornou-se o segundo homem a vencer a Copa como jogador e técnico, após Mário Zagallo[reference:50].
A campanha – A Alemanha venceu 6 jogos e empatou 1, com 15 gols marcados e 5 sofridos.
Maradona, Goycochea e a "final mais feia da história"
A campanha irregular – A Argentina chegou à Itália como atual campeã, mas fez uma campanha irregular. Perdeu na estreia para Camarões por 1×0, em uma das maiores zebras da história das Copas[reference:51]. Na primeira fase, teve 1 vitória, 1 empate e 1 derrota.
O herói Goycochea – O goleiro Sergio Goycochea foi o grande nome da Argentina no mata-mata. Defendeu pênaltis nas quartas contra a Iugoslávia e na semifinal contra a Itália, levando a equipe à final[reference:52].
O pior ataque da história – A Argentina chegou à final com o pior ataque de todos os tempos entre os finalistas, tendo feito apenas 5 gols em toda a Copa[reference:53]. Na final, não marcou nenhum gol[reference:54].
Maradona, Caniggia e a "água batizada"
O contexto – O Brasil chegou às oitavas de final com 100% de aproveitamento e apenas um gol sofrido. A seleção era uma das favoritas ao título[reference:55].
O jogo contra a Argentina – O Brasil enfrentou a Argentina no Stadio Delle Alpi, em Turim, em 24 de junho de 1990[reference:56]. O jogo foi truncado e marcado por polêmicas.
O gol de Caniggia – Aos 35 minutos do segundo tempo, Diego Maradona arrancou do meio-campo, driblou a defesa brasileira e serviu Claudio Caniggia, que driblou o goleiro Taffarel e marcou o gol da vitória argentina[reference:57].
A "água batizada" – A partida ficou marcada pela polêmica da "água batizada". Durante o intervalo, o lateral brasileiro Branco pediu água ao massagista da seleção argentina. Anos depois, Maradona confessou que a água havia sido "batizada" com tranquilizantes[reference:58][reference:59].
A "Era Dunga" – A eliminação consolidou a "Era Dunga", um termo pejorativo que passou a designar o futebol pragmático e pouco criativo da seleção brasileira[reference:60].
O tricampeonato alemão
Campanha – A Alemanha Ocidental venceu 6 jogos (Iugoslávia, Emirados Árabes, Holanda, Tchecoslováquia, Inglaterra e Argentina) e empatou 1 (Colômbia). Foram 15 gols marcados e 5 sofridos.
Jogadores – O elenco tricampeão contava com grandes nomes: Lothar Matthäus, Jürgen Klinsmann, Rudi Völler, Andreas Brehme, Pierre Littbarski, Guido Buchwald, Bodo Illgner.
Técnico – Franz Beckenbauer comandou a equipe com maestria, tornando-se o segundo homem a vencer a Copa como jogador e técnico.
O terceiro de quatro – O título de 1990 foi o terceiro de quatro conquistas alemãs (1954, 1974, 1990 e 2014).
Números que contam a história
Destaques: A Alemanha Ocidental teve o melhor ataque da fase de grupos (10 gols)[reference:61] e a melhor defesa foi a da Itália, que não sofreu nenhum gol na primeira fase[reference:62]. A Copa de 1990 detém o recorde de menor média de gols por partida[reference:63].
Melhor jogador: Salvatore Schillaci (Itália)[reference:64].
Melhor jogador jovem: Robert Prosinečki (Iugoslávia).
Fair Play: Inglaterra.
Fatos que você talvez não conheça
Como o tri alemão, as "Noites Mágicas" e a "Era Dunga" marcaram a história
O tri alemão – A Alemanha Ocidental conquistou seu terceiro título mundial, consolidando-se como uma das maiores potências do futebol mundial. O título foi o último da Alemanha Ocidental antes da reunificação[reference:75].
As "Noites Mágicas" – A campanha da Itália, com os gols de Schillaci e a defesa de Zenga, ficou marcada como as "Noites Mágicas", um dos momentos mais emocionantes da história do futebol italiano[reference:76].
A "Era Dunga" e a mudança no futebol brasileiro – A eliminação precoce do Brasil consolidou a "Era Dunga", um termo que passou a designar o futebol pragmático e pouco criativo da seleção[reference:77]. A derrota para a Argentina e a polêmica da "água batizada" marcaram uma geração[reference:78].
A mudança nas regras – O futebol defensivo e a baixa média de gols da Copa de 1990 forçaram a FIFA a mudar as regras do esporte nos anos seguintes, incluindo a proibição do passe para o goleiro com a mão[reference:79].
Camarões e a África – A campanha de Camarões, que chegou às quartas de final, foi a melhor de uma seleção africana até então e abriu caminho para o crescimento do futebol no continente[reference:80].