A história completa da Copa em que a Itália conquistou seu terceiro título, o Brasil encantou o mundo mas caiu diante de Paolo Rossi, e a Espanha sediou a primeira edição com 24 seleções.
A Guerra Fria, a transição espanhola e a expansão do torneio
O cenário mundial – Em 1982, o mundo vivia sob a tensão da Guerra Fria. A União Soviética e os Estados Unidos disputavam influência global, e a Guerra Fria se intensificava. O futebol, mais uma vez, servia como palco para rivalidades políticas e culturais.
A Espanha em transição – A Espanha vivia um momento de transformação política. O ditador Francisco Franco havia morrido em 1975, e o país estava em plena transição para a democracia. A Copa do Mundo foi vista como uma oportunidade de mostrar ao mundo a nova Espanha, moderna e aberta, e de consolidar a imagem do país no cenário internacional.
A expansão para 24 seleções – Esta foi a primeira Copa do Mundo com 24 seleções participantes, um aumento em relação às 16 das edições anteriores[reference:0][reference:1]. O número de partidas saltou de 38 para 52[reference:2][reference:3], e o torneio se estendeu por quase um mês. A expansão permitiu a participação de mais países da África, Ásia e América do Norte[reference:4].
O contexto político – A Copa de 1982 ocorreu em meio à Guerra das Malvinas, conflito entre Argentina e Reino Unido. A Argentina, atual campeã, chegou à Espanha com o moral abalado pela derrota na guerra, e foi eliminada na segunda fase[reference:5].
A primeira Copa na Península Ibérica
A escolha da Espanha – A Espanha foi escolhida como sede da Copa de 1982 em 1966, durante o Congresso da FIFA em Londres, com 17 estádios em 14 cidades[reference:6][reference:7]. A candidatura espanhola venceu a da Alemanha Ocidental. Foi a primeira Copa do Mundo realizada na Península Ibérica.
Os estádios – Foram 17 estádios em 14 cidades, um recorde na época[reference:8]. Os principais palcos foram:
O mascote Naranjito – A Copa de 1982 teve como mascote Naranjito, uma simpática laranja vestindo a camisa da seleção espanhola[reference:15]. Foi um dos mascotes mais populares da história das Copas.
24 equipes em busca da glória
Participantes – 24 seleções disputaram a Copa de 1982. Foram 14 europeias, 4 sul-americanas, 2 da América do Norte, 2 da África e 2 da Ásia[reference:16].
Estreantes – Cinco seleções fizeram sua primeira participação em Copas: Argélia, Camarões, Honduras, Kuwait e Nova Zelândia[reference:17][reference:18].
Ausências de peso – O Uruguai, bicampeão mundial (1930 e 1950), não se classificou. A Escócia e a Irlanda do Norte participaram, mas a República da Irlanda ficou de fora.
Os cabeças de chave – O sorteio foi realizado em 16 de janeiro de 1982 em Madri. Os cabeças de chave foram: Alemanha Ocidental, Argentina, Brasil, Espanha, Inglaterra e Itália[reference:19].
Um formato único que nunca mais se repetiu
Primeira fase – As 24 seleções foram divididas em seis grupos com quatro equipes cada. As equipes se enfrentaram em turno único. Os dois primeiros colocados de cada grupo avançaram para a segunda fase[reference:21].
Segunda fase – Os 12 classificados foram divididos em quatro grupos de três equipes. Cada grupo jogou em turno único (todos contra todos). Os vencedores de cada grupo da segunda fase avançaram para as semifinais[reference:22][reference:23]. Este formato foi único na história das Copas e nunca mais foi repetido[reference:24].
Semifinais e final – Os quatro vencedores dos grupos da segunda fase se enfrentaram em semifinais de jogo único. Os vencedores disputaram a final, e os perdedores, a disputa do terceiro lugar.
Penalidades – A disputa por pênaltis foi utilizada pela primeira vez na história das Copas na semifinal entre Alemanha Ocidental e França[reference:25]. A regra já existia desde 1974, mas nunca havia sido necessária.
O futebol-arte encanta o mundo, mas cai diante da Itália
O Brasil chegou à Espanha com uma equipe talentosa, comandada pelo técnico Telê Santana. A campanha foi brilhante na primeira fase, com três vitórias e 10 gols marcados. O time encantou o mundo com seu futebol-arte, mas foi eliminado na segunda fase pela Itália, em uma das partidas mais memoráveis da história das Copas[reference:27].
Brasil 2×1 União Soviética – Estreia com vitória de virada. A URSS saiu na frente, mas Sócrates e Éder marcaram e garantiram a vitória[reference:32].
Brasil 4×1 Escócia – Goleada com show de Zico, que marcou dois gols[reference:33].
Brasil 4×0 Nova Zelândia – Mais uma goleada, com Zico novamente marcando dois gols. O Brasil terminou a primeira fase com 100% de aproveitamento e 10 gols marcados[reference:34].
Brasil 3×1 Argentina – O Brasil atropelou a Argentina, se vingando de 1978[reference:37]. Zico, Serginho Chulapa e Júnior marcaram os gols[reference:38]. O jovem Maradona foi expulso após desferir um golpe em Batista[reference:39].
Brasil 2×3 Itália – A "Tragédia do Sarriá". O Brasil precisava apenas do empate para se classificar[reference:40]. Paolo Rossi, que não havia marcado nenhum gol na primeira fase, fez um hat-trick e eliminou o Brasil[reference:41][reference:42]. O Brasil chegou a empatar duas vezes (Sócrates e Falcão), mas Rossi marcou o terceiro e decisivo[reference:43].
Os craques que brilharam na Espanha
Paolo Rossi – O herói improvável. Suspenso por dois anos por envolvimento no escândalo das apostas (Totonero), voltou à seleção a pedido do técnico Enzo Bearzot[reference:44]. Não marcou nenhum gol na primeira fase, mas fez 6 gols na segunda fase e na final, incluindo um hat-trick contra o Brasil[reference:45][reference:46]. Foi o artilheiro e o melhor jogador do torneio (Bola de Ouro)[reference:47][reference:48].
Dino Zoff – O capitão e goleiro. Aos 40 anos, tornou-se o mais velho jogador a vencer uma Copa do Mundo, um recorde que permanece até hoje[reference:49][reference:50].
Marco Tardelli – Marcou o segundo gol da final e ficou famoso por sua comemoração icônica, correndo e gritando com os punhos cerrados[reference:51][reference:52].
Zico – O "Galinho", camisa 10, foi o cérebro da equipe e marcou 4 gols na Copa.
Sócrates – O "Doutor", capitão da equipe, marcou gols importantes contra a URSS e a Itália[reference:53].
Falcão – O "Rei de Roma", que jogava na Itália, marcou um gol contra a Itália na "Tragédia do Sarriá"[reference:54].
Michel Platini – O cérebro da França, foi um dos melhores jogadores do torneio.
Itália e Alemanha Ocidental se encontram na decisão
A Itália começou a Copa de forma péssima: três empates na primeira fase (0×0 com Polônia, 1×1 com Peru, 1×1 com Camarões)[reference:55]. A Azzurra só se classificou por ter marcado um gol a mais que Camarões[reference:56]. Na segunda fase, a Itália se transformou: venceu a Argentina por 2×1 e o Brasil por 3×2, garantindo vaga na semifinal[reference:57]. Na semifinal, venceu a Polônia por 2×0, com dois gols de Rossi[reference:58].
A Alemanha Ocidental passou pela primeira fase com 2 vitórias e 1 derrota (para a Argélia). Na segunda fase, venceu a Espanha por 2×1 e a Inglaterra por 0×0, garantindo vaga na semifinal[reference:59]. Na semifinal, enfrentou a França em uma partida épica: 1×1 no tempo normal, 3×3 na prorrogação, e vitória alemã nos pênaltis (5×4)[reference:60]. Foi a primeira decisão por pênaltis da história das Copas[reference:61].
11 de julho de 1982 – O tricampeonato italiano
11 de julho de 1982 – Estádio Santiago Bernabéu, Madri. Público de 90.000 espectadores[reference:62]. A final colocou frente a frente a Itália, em busca do terceiro título, e a Alemanha Ocidental, que sonhava com o terceiro também.
O primeiro tempo – O primeiro tempo terminou em 0×0. A Itália teve um pênalti perdido por Antonio Cabrini aos 35 minutos[reference:63].
A virada italiana – No segundo tempo, a Itália dominou. Aos 12 minutos, Paolo Rossi abriu o placar de cabeça[reference:64][reference:65]. Aos 23 minutos, Marco Tardelli ampliou com um chute de fora da área[reference:66]. Sua comemoração, correndo e gritando, se tornou um dos momentos mais icônicos da história das Copas[reference:67]. Aos 35 minutos, Alessandro Altobelli fez o terceiro[reference:68]. A Alemanha ainda descontou com Paul Breitner aos 38 minutos[reference:69], mas a Itália venceu por 3×1[reference:70][reference:71].
O título – A Itália venceu por 3×1 e conquistou o terceiro título mundial, o primeiro desde 1938[reference:72]. Foi o terceiro título italiano, ao lado de 1934 e 1938[reference:73].
A redenção da Azzurra
O título inesperado – A Itália chegou à Espanha como uma das menos favoritas. A campanha na primeira fase foi pífia, com três empates[reference:74]. No entanto, a equipe de Enzo Bearzot se transformou na segunda fase, vencendo Argentina, Brasil, Polônia e Alemanha Ocidental[reference:75].
O técnico Enzo Bearzot – Bearzot foi o arquiteto do título. Ele manteve a confiança em Paolo Rossi, mesmo com o atacante em má fase, e montou uma defesa sólida e um ataque letal.
O capitão Dino Zoff – Aos 40 anos, Zoff se tornou o mais velho jogador a vencer uma Copa do Mundo, um recorde que permanece até hoje[reference:76].
O herói improvável que saiu da suspensão para o título
A suspensão – Paolo Rossi foi suspenso por dois anos por envolvimento no escândalo das apostas (Totonero)[reference:78]. Ele voltou a jogar pouco antes da Copa, e o técnico Enzo Bearzot o convocou, uma decisão altamente criticada pela imprensa italiana[reference:79].
O início em branco – Rossi não marcou nenhum gol na primeira fase[reference:80]. A imprensa italiana o criticava duramente, mas Bearzot manteve a confiança.
A explosão na segunda fase – Na segunda fase, Rossi se transformou. Marcou um hat-trick contra o Brasil[reference:81][reference:82], dois gols contra a Polônia na semifinal[reference:83], e o primeiro gol da final contra a Alemanha[reference:84].
O artilheiro e o melhor – Rossi terminou a Copa como artilheiro (6 gols) e foi eleito o melhor jogador do torneio (Bola de Ouro)[reference:85][reference:86].
O dia em que o Brasil encantou o mundo, mas caiu
O contexto – Brasil e Itália se enfrentaram no Estádio Sarriá, em Barcelona, pelo terceiro jogo da segunda fase[reference:87]. O Brasil, com 100% de aproveitamento, precisava apenas do empate para se classificar[reference:88]. A Itália, que havia empatado os três jogos da primeira fase, precisava vencer[reference:89].
O jogo – A Itália abriu o placar aos 5 minutos, com Paolo Rossi[reference:90]. O Brasil empatou com Sócrates[reference:91]. Rossi marcou o segundo[reference:92]. Falcão empatou novamente[reference:93]. Mas Rossi marcou o terceiro, decretando a vitória italiana por 3×2[reference:94][reference:95].
O impacto – A derrota foi um trauma para o futebol brasileiro. A seleção de Telê Santana, que encantara o mundo com seu futebol-arte, foi eliminada sem perder nenhum jogo (4 vitórias, 1 derrota na segunda fase). O jogo ficou conhecido como a "Tragédia do Sarriá"[reference:96][reference:97].
O dia em que o futebol perdeu a graça
O contexto – No Grupo 2, Alemanha Ocidental, Áustria, Argélia e Chile se enfrentavam. A Argélia havia derrotado a Alemanha por 2×1 em sua estreia[reference:98]. Na última rodada, Alemanha e Áustria se enfrentaram em Gijón[reference:99].
A situação – Antes do jogo, a Alemanha tinha 2 pontos (1 vitória, 1 derrota), a Áustria tinha 2 pontos (1 vitória, 1 derrota), e a Argélia tinha 2 pontos (1 vitória, 1 derrota). O saldo de gols era: Alemanha +3, Áustria +2, Argélia 0. Se a Alemanha vencesse por 1×0 ou 2×0, ambos se classificariam. Qualquer outro resultado eliminaria um dos dois.
O jogo – A Alemanha marcou um gol aos 10 minutos. A partir daí, as duas equipes pararam de jogar, trocando passes sem objetivo[reference:100]. O jogo terminou em 1×0 para a Alemanha, e ambos se classificaram, eliminando a Argélia[reference:101].
A reação – O jogo foi amplamente criticado e ficou conhecido como a "Vergonha de Gijón" (Disgrace of Gijón)[reference:102]. A FIFA, em resposta, alterou as regras para que os jogos da última rodada da fase de grupos fossem disputados simultaneamente, para evitar combinações[reference:103].
O tricampeonato italiano
Campanha – A Itália venceu 4 jogos (Argentina, Brasil, Polônia e Alemanha Ocidental) e empatou 3 (Polônia, Peru, Camarões). Foram 11 gols marcados e 6 sofridos.
Jogadores – O elenco tricampeão contava com grandes nomes: Paolo Rossi, Dino Zoff, Marco Tardelli, Claudio Gentile, Antonio Cabrini, Bruno Conti, Gaetano Scirea.
Técnico – Enzo Bearzot comandou a equipe com maestria, tornando-se o segundo técnico italiano a vencer uma Copa do Mundo (o primeiro foi Vittorio Pozzo, em 1934 e 1938).
O terceiro de quatro – O título de 1982 foi o terceiro de quatro conquistas italianas (1934, 1938, 1982 e 2006).
Números que contam a história
Destaques: A Hungria aplicou a maior goleada da história das Copas até então: 10×1 sobre El Salvador[reference:111]. O Brasil recebeu o prêmio Fair Play[reference:112][reference:113]. Paolo Rossi foi eleito o melhor jogador (Bola de Ouro)[reference:114].
Melhor jogador jovem: Manuel Amoros (França)[reference:115][reference:116].
Fatos que você talvez não conheça
Como o tri italiano e a tragédia brasileira marcaram a história
O tri italiano – A Itália conquistou seu terceiro título mundial, consolidando-se como uma das maiores potências do futebol. A vitória sobre o Brasil, Argentina e Alemanha Ocidental foi uma das campanhas mais impressionantes da história das Copas[reference:127].
A "Tragédia do Sarriá" – O Brasil de 1982 é lembrado como uma das maiores seleções que não conquistaram um título mundial. O futebol-arte de Telê Santana encantou o mundo, mas a derrota para a Itália foi um trauma que perdura até hoje[reference:128].
A "Vergonha de Gijón" – O jogo entre Alemanha e Áustria manchou a reputação do futebol e forçou a FIFA a mudar as regras[reference:129].
A expansão do torneio – A Copa de 1982 foi a primeira com 24 seleções, abrindo o torneio para mais países e aumentando sua popularidade global[reference:130].
O legado de Paolo Rossi – Rossi se tornou um herói nacional na Itália. Sua história de superação e seus gols decisivos o consagraram como uma lenda do futebol[reference:131].