A história completa da Copa em que a Argentina conquistou seu primeiro título mundial, em casa, sob uma ditadura militar, em um torneio marcado por suspeitas de manipulação e pela campanha invicta do Brasil.
A Guerra Fria, a ditadura argentina e a Copa como instrumento de propaganda
O cenário mundial – Em 1978, o mundo vivia sob a tensão da Guerra Fria. Os Estados Unidos e a União Soviética disputavam influência global, e a América do Sul era um campo de batalha ideológico. O futebol, mais uma vez, servia como palco para rivalidades políticas e culturais.
A Argentina sob ditadura – A Argentina vivia sob o regime militar mais sangrento de sua história, o "Processo de Reorganização Nacional", instaurado em 1976. O general Jorge Rafael Videla governava o país com mão de ferro. Milhares de pessoas eram sequestradas, torturadas e desaparecidas em prisões clandestinas[reference:0]. A Copa do Mundo foi usada pelo regime como uma ferramenta de propaganda (sportwashing) para promover uma imagem internacional positiva do país e desviar a atenção das violações dos direitos humanos[reference:1].
A última Copa com 16 seleções – Esta foi a última Copa do Mundo com apenas 16 seleções participantes[reference:2]. A partir de 1982, o torneio seria expandido para 24 equipes.
O boicote e as ameaças – A França cogitou boicotar a competição como protesto contra a morte de freiras francesas, supostamente a mando da ditadura argentina, mas acabou desistindo[reference:3]. A Copa também foi alvo de uma campanha de boicote por parte de organizações de direitos humanos[reference:4].
A primeira Copa na Argentina
Uma longa espera – A Argentina muito tentou até conseguir convencer a FIFA de que poderia ser sede de uma Copa[reference:5]. Outros três países sul-americanos já haviam sediado o torneio: Uruguai (1930), Brasil (1950) e Chile (1962). A Argentina foi escolhida como sede em 1966, durante o Congresso da FIFA em Londres.
As cidades-sede e estádios – Apenas cinco cidades receberam jogos do Mundial[reference:6]. Foram seis estádios no total:
A polêmica da escolha – A escolha da Argentina como sede ocorreu em meio ao período ditatorial argentino, uma decisão delicada do ponto de vista diplomático[reference:7]. Muitos países criticaram a FIFA por manter a sede no país.
16 equipes em busca da glória
Participantes – 16 seleções disputaram a Copa de 1978. Foram 9 europeias, 3 sul-americanas, 2 da América do Norte, 1 da Ásia e 1 da África.
Estreantes – Irã e Tunísia fizeram sua primeira participação em Copas. A Tunísia foi a primeira seleção africana a vencer um jogo de Copa, ao derrotar o México por 3×1.
Ausências de peso – Dois campeões mundiais ficaram de fora: Uruguai (campeão em 1930 e 1950) e Inglaterra (campeã em 1966)[reference:9]. A União Soviética também não se classificou.
Duas fases de grupos, sem quartas de final
O mesmo formato de 1974 – A Copa de 1978 manteve o formato inovador de duas fases de grupos, que havia sido introduzido em 1974[reference:10].
Primeira fase – As 16 seleções foram divididas em quatro grupos com quatro equipes cada, que se enfrentaram em turno único. Os dois primeiros colocados de cada grupo avançaram para a segunda fase[reference:11].
Segunda fase – Os oito classificados foram divididos em dois grupos de quatro equipes. Cada grupo jogou em turno único (todos contra todos). Os vencedores de cada grupo da segunda fase disputaram a final, e os segundos colocados disputaram o terceiro lugar[reference:12].
Penalidades – A disputa por pênaltis foi oficialmente introduzida nas regras em 1978, mas não foi necessária em nenhuma partida[reference:13].
Invicta, mas eliminada no saldo de gols
O Brasil chegou à Argentina com uma equipe talentosa, comandada pelo técnico Cláudio Coutinho, que assumiu o comando após a saída de Osvaldo Brandão[reference:14]. A campanha foi invicta: 4 vitórias e 3 empates em 7 jogos, com 10 gols marcados e apenas 3 sofridos[reference:15]. O Brasil foi a única seleção invicta do torneio[reference:16]. Apesar disso, terminou em terceiro lugar.
Brasil 1×1 Suécia – Estreia com empate. O jogo ficou marcado por uma polêmica: no último lance, Nelinho cobrou escanteio, Zico cabeceou para o gol, mas o árbitro galês Clive Thomas invalidou o gol alegando que havia encerrado a partida durante a cobrança[reference:17]. Thomas foi afastado pela FIFA e não apitou mais no torneio[reference:18].
Brasil 0×0 Espanha – Segundo empate consecutivo. O Brasil jogou mal e não conseguiu furar a defesa espanhola.
Brasil 1×0 Áustria – O Brasil precisava vencer para se classificar e conseguiu com gol de Roberto Dinamite. A classificação foi magra, mas suficiente.
Brasil 3×0 Peru – Excelente atuação. Dirceu marcou dois gols e Zico um. O Brasil mostrou seu melhor futebol.
Brasil 0×0 Argentina – Clássico violento e equilibrado. O empate manteve a Argentina viva na competição.
Brasil 3×1 Polônia – O Brasil venceu, mas não foi suficiente. A Argentina, jogando horas depois, goleou o Peru por 6×0 e ultrapassou o Brasil no saldo de gols[reference:19].
Brasil 2×1 Itália – O Brasil venceu a Itália de virada e conquistou o terceiro lugar, terminando a Copa invicto[reference:20]. O técnico Cláudio Coutinho cunhou a expressão "campeões morais" para definir o desempenho da equipe[reference:21].
Os craques que brilharam na Argentina
Mario Kempes – O herói da conquista. Foi o artilheiro da Copa com 6 gols e eleito o melhor jogador do torneio[reference:23][reference:24]. Marcou dois gols na final, na prorrogação, e foi decisivo em todas as fases[reference:25].
Ubaldo Fillol – O "Pato", goleiro da Argentina. Fez defesas espetaculares ao longo do torneio.
Osvaldo Ardiles – Meia-atacante habilidoso, foi um dos destaques da equipe.
Johan Neeskens – O "motor" da Laranja Mecânica, que disputava sua segunda final consecutiva.
Rob Rensenbrink – O artilheiro da Holanda na Copa, com 5 gols. Quase marcou o gol do título nos segundos finais do tempo regulamentar da final[reference:26].
Dirceu – O artilheiro do Brasil na Copa, com 3 gols.
Zico – O "Galinho", que fazia sua estreia em Copas. Marcou um gol e teve outro anulado na estreia.
Argentina e Holanda se reencontram
A Argentina passou pela primeira fase com 2 vitórias (Hungria e França) e 1 derrota (Itália)[reference:27]. Na segunda fase, venceu a Polônia por 2×0, empatou com o Brasil por 0×0 e goleou o Peru por 6×0, garantindo a vaga na final pelo saldo de gols[reference:28].
A Holanda passou invicta pela primeira fase: 3×0 no Irã, 0×0 no Peru e 2×2 na Escócia. Na segunda fase, venceu a Alemanha Ocidental (2×2? Na verdade, o jogo terminou 2×2[reference:29]), a Itália (2×1) e a Áustria (5×1), garantindo vaga na final.
A ausência de Cruyff – A Holanda chegou à final sem seu principal jogador, Johan Cruyff, que havia se aposentado da seleção em 1977[reference:30].
25 de junho de 1978 – O primeiro título argentino
25 de junho de 1978 – Estádio Monumental, Buenos Aires. Público de 71.483 espectadores. A final colocou frente a frente a Argentina, em busca do primeiro título, e a Holanda, que sonhava com o primeiro também.
O primeiro tempo – A Argentina começou melhor. Aos 38 minutos, Mario Kempes abriu o placar após tabela com Luque[reference:32]. O primeiro tempo terminou em 1×0 para a Argentina.
O empate holandês – No segundo tempo, a Holanda pressionou. Aos 39 minutos, Dick Nanninga empatou de cabeça[reference:33]. O jogo foi para a prorrogação com 1×1.
O quase gol holandês – Nos últimos segundos do tempo regulamentar, Rob Rensenbrink, livre, chutou rasteiro, mas a bola bateu na trave e saiu[reference:34]. Se tivesse entrado, a Holanda seria campeã.
A prorrogação – Na prorrogação, a Argentina dominou. Aos 15 minutos do primeiro tempo da prorrogação, Mario Kempes driblou dois defensores e chutou rasteiro, fazendo 2×1[reference:35]. Aos 29 minutos do segundo tempo da prorrogação, Daniel Bertoni fechou o placar em 3×1[reference:36].
O título – A Argentina venceu por 3×1 e conquistou o primeiro título mundial de sua história[reference:37]. A festa foi imensa nas ruas de Buenos Aires, mas a alegria era ofuscada pelo contexto da ditadura militar[reference:38].
A consagração em casa
O título inédito – A Argentina conquistou seu primeiro título mundial em 1978[reference:39]. Foi a primeira vez que o país chegou a uma final de Copa (em 1930, havia perdido a final para o Uruguai).
O técnico César Luis Menotti – "El Flaco" Menotti comandou a equipe com maestria. Ele causou polêmica ao deixar o então jovem Diego Maradona, de 17 anos, fora da convocação final[reference:40].
O artilheiro Kempes – Mario Kempes, que passou em branco na fase de grupos, marcou 6 gols na Copa, todos a partir da segunda fase[reference:41]. Ele foi o artilheiro e o melhor jogador do torneio[reference:42].
O jogo que eliminou o Brasil e levantou suspeitas
O contexto – Na segunda fase, Brasil, Argentina, Peru e Polônia estavam no Grupo B. Após duas rodadas, Brasil e Argentina estavam empatados em pontos[reference:43]. A decisão ficou para a última rodada.
A inversão dos horários – Atendendo a pedidos das emissoras de TV argentinas, a FIFA inverteu os horários dos jogos decisivos do Grupo B[reference:44]. Originalmente, Argentina×Peru seria à tarde e Brasil×Polônia à noite. Com a inversão, o Brasil jogou primeiro.
Brasil 3×1 Polônia – O Brasil venceu a Polônia por 3×1 e ficou com 4 pontos e saldo de +3 (5 gols marcados e 2 sofridos). A Argentina, com 3 pontos, precisava vencer o Peru por pelo menos 4 gols de diferença para se classificar[reference:45].
Argentina 6×0 Peru – A Argentina entrou em campo sabendo exatamente o que precisava. O resultado foi um sonoro 6×0[reference:46]. O goleiro do Peru, Ramón Quiroga, que nasceu na Argentina, foi acusado de ter facilitado os gols[reference:47].
As suspeitas – A partida é até hoje uma das mais polêmicas da história das Copas[reference:48]. Suspeitas incluem:
O primeiro título de uma nação
Campanha – A Argentina venceu 5 jogos, empatou 1 e perdeu 1. Foram 15 gols marcados e 4 sofridos[reference:54].
Jogadores – O elenco campeão contava com grandes nomes: Mario Kempes, Ubaldo Fillol, Osvaldo Ardiles, Daniel Bertoni, Leopoldo Luque, Alberto Tarantini.
Técnico – César Luis Menotti comandou a equipe com maestria, tornando-se o primeiro técnico argentino a vencer uma Copa do Mundo.
O primeiro de três – O título de 1978 foi o primeiro de três conquistas argentinas (1978, 1986 e 2022).
Números que contam a história
Destaques: O Brasil foi a única seleção invicta do torneio (4 vitórias e 3 empates)[reference:55]. O Peru teve o melhor ataque da fase de grupos (7 gols)[reference:56]. A Alemanha Ocidental teve a melhor defesa da fase de grupos (nenhum gol sofrido)[reference:57].
Melhor jogador: Mario Kempes (Argentina)[reference:58].
Melhor jogador jovem: Antonio Cabrini (Itália)[reference:59].
Fair Play: Argentina[reference:60].
Fatos que você talvez não conheça
Como o primeiro título argentino e a polêmica marcaram a história
O primeiro título argentino – A Argentina finalmente conquistou seu primeiro título mundial, em casa, após 48 anos de espera. O feito consolidou o país como uma potência do futebol mundial.
A polêmica que nunca foi esquecida – O jogo Argentina 6×0 Peru é lembrado como um dos mais controversos da história das Copas. As acusações de manipulação, suborno e coerção política nunca foram comprovadas, mas as suspeitas permanecem[reference:68].
O Brasil invicto, mas eliminado – O Brasil foi a única seleção invicta do torneio, mas terminou em terceiro lugar[reference:69]. A eliminação no saldo de gols, após a suspeita goleada da Argentina, gerou um sentimento de injustiça que perdura até hoje[reference:70].
A ausência de Cruyff – A Holanda, vice-campeã em 1974, chegou à final sem seu principal jogador, Johan Cruyff[reference:71]. A derrota na final consolidou a Holanda como a "eterna vice".
A Copa como instrumento político – A Copa de 1978 foi usada pela ditadura argentina como ferramenta de propaganda para promover uma imagem internacional positiva do regime[reference:72]. O título foi celebrado pelo governo Videla, que tentou associar a vitória ao "orgulho nacional".