A história completa da Copa em que a Holanda encantou o mundo com o Futebol Total, mas a Alemanha Ocidental, com raça e eficiência, conquistou o bicampeonato em casa.
A Guerra Fria, a Alemanha dividida e o futebol como palco de disputas
O cenário mundial – Em 1974, o mundo vivia sob a tensão da Guerra Fria. A Alemanha estava dividida em dois países: a Alemanha Ocidental (RFA), capitalista e aliada dos Estados Unidos, e a Alemanha Oriental (RDA), comunista e aliada da União Soviética. A Copa do Mundo seria disputada em solo alemão, e o confronto entre as duas Alemanhas era aguardado com grande expectativa. Foi a única vez que as duas Alemanhas se enfrentaram em uma Copa do Mundo.
O Brasil de Médici – O Brasil vivia sob o regime militar do presidente Emílio Garrastazu Médici. O "milagre econômico" brasileiro começava a dar sinais de desgaste, e o futebol continuava sendo uma ferramenta de propaganda do regime. A seleção, porém, não contava mais com Pelé (aposentado da Seleção em 1971), Tostão (problema nos olhos), Gérson, Carlos Alberto e Clodoaldo (lesionados). O técnico Zagallo permaneceu no comando, mas a equipe era consideravelmente mais limitada que a de 1970.
A estreia do novo troféu – O Brasil havia conquistado a posse definitiva da Taça Jules Rimet em 1970. A FIFA criou um novo troféu, desenhado pelo italiano Silvio Gazzaniga, que seria utilizado a partir de 1974. A nova taça, de ouro maciço e 37 centímetros, não seria mais concedida em definitivo a nenhum país. O Brasil precisaria esperar 20 anos (1994) para levantar o novo prêmio.
A eleição de João Havelange – Em 1974, o brasileiro João Havelange foi eleito presidente da FIFA, sucedendo o inglês Sir Stanley Rous. Foi a primeira vez que um presidente não europeu comandou a entidade máxima do futebol mundial.[reference:0]
A primeira Copa na Alemanha, após décadas de espera
Uma longa espera – A Alemanha, uma das principais potências do futebol mundial, nunca havia sediado uma Copa do Mundo. O país foi prejudicado pelo regime nazista e pela Segunda Guerra Mundial, que atrasaram sua candidatura. Seria natural que recebesse uma Copa nas décadas de 1940 ou 1950, mas a reconstrução da nação germânica adiou o objetivo.[reference:1]
A escolha da Alemanha Ocidental – A Espanha chegou a concorrer com a Alemanha, mas retirou a candidatura em troca de apoio oito anos depois.[reference:2] A Alemanha Ocidental foi escolhida como sede em 1966, durante o Congresso da FIFA em Londres.
As cidades-sede e estádios – Foram nove cidades e nove estádios que receberam os 38 jogos da Copa do Mundo de 1974:[reference:3][reference:4]
A segurança reforçada – A organização reforçou o policiamento em torno das concentrações das seleções, dois anos após o ataque terrorista na Olimpíada de Munique (1972), quando 11 atletas israelenses foram mortos.[reference:7]
16 equipes em busca da glória
Participantes – 16 seleções disputaram a Copa de 1974.[reference:9] Os participantes foram:[reference:10][reference:11]
Estreantes – Quatro seleções fizeram sua primeira participação em Copas: Alemanha Oriental, Austrália, Haiti e Zaire.[reference:12]
Ausências de peso – A Inglaterra, campeã de 1966, ficou de fora. A Espanha e a França também não se classificaram.[reference:13] O Uruguai, bicampeão mundial, foi eliminado na fase de grupos.[reference:14]
Duas fases de grupos, sem quartas de final
Uma mudança radical – A Copa de 1974 introduziu um formato inovador que só se repetiria em 1978. Em vez do tradicional mata-mata a partir das quartas de final, a competição passou a ter duas fases de grupos. [reference:16][reference:17]
Primeira fase – As 16 seleções foram divididas em quatro grupos com quatro equipes cada, que se enfrentaram em turno único. Os dois primeiros colocados de cada grupo avançaram para a segunda fase.[reference:18]
Segunda fase – Os oito classificados foram divididos em dois grupos de quatro equipes. Cada grupo jogou em turno único (todos contra todos). Os vencedores de cada grupo da segunda fase disputaram a final, e os segundos colocados disputaram o terceiro lugar.[reference:19][reference:20]
Jogo de abertura – O torneio passou a ter o país campeão da Copa anterior no jogo de abertura, em vez do país-sede. Por isso, o Brasil (campeão de 1970) abriu a Copa contra a Iugoslávia, em Frankfurt.[reference:21]
Uma campanha sem brilho, com direito a eliminação para a Laranja Mecânica
O Brasil chegou à Alemanha sem seus grandes nomes de 1970. Pelé havia se aposentado da Seleção em 1971, Tostão pendurou as chuteiras por um problema no olho, e Gérson, Carlos Alberto, Félix e Clodoaldo estavam lesionados.[reference:22] Zagallo permaneceu no comando, mas a equipe era limitada e ultrapassada taticamente.[reference:23]
Brasil 0×0 Iugoslávia – Estreia sem gols, com uma formação inédita. O Brasil começou a Copa com o pé esquerdo.[reference:24]
Brasil 0×0 Escócia – Mais um empate sem gols. A falta de poder ofensivo era evidente.[reference:25]
Brasil 3×0 Zaire – O Brasil precisava vencer por três gols de diferença para garantir a classificação, e conseguiu. Jairzinho abriu o placar, Rivellino ampliou e Valdomiro fechou.[reference:26]
Brasil 1×0 Alemanha Oriental – A melhor atuação brasileira na Copa. Rivellino marcou de falta.[reference:27]
Brasil 2×1 Argentina – Primeiro confronto Brasil × Argentina em Copas. Rivellino e Jairzinho marcaram.[reference:28]
Brasil 0×2 Holanda – O Brasil precisava vencer para ir à final, mas não foi páreo para a Laranja Mecânica. Neeskens e Cruyff marcaram.[reference:29]
Brasil 0×1 Polônia – O Brasil perdeu também a disputa do terceiro lugar, com gol de Lato, o artilheiro da Copa.[reference:30]
Os craques que encantaram o mundo em 1974
Franz Beckenbauer – O "Kaiser", capitão da Alemanha. Atuava como líbero e era o cérebro da equipe. Foi eleito o melhor jogador europeu do ano em 1972 e 1976. Sua liderança foi fundamental para o título.[reference:35]
Gerd Müller – O "Bomber", artilheiro nato. Marcou o gol da vitória na final. Com 14 gols em Copas, era o maior artilheiro da história do torneio até 2006.[reference:36]
Paul Breitner – Lateral-esquerdo com chegada ao ataque. Marcou o gol de empate na final.[reference:37]
Sepp Maier – Goleiro da Alemanha. Fez defesas espetaculares na final, segurando o ataque holandês.[reference:38]
Johan Cruyff – O gênio do Futebol Total. Foi eleito o melhor jogador da Copa. Usava a camisa 14, fugindo da numeração tradicional.[reference:39][reference:40]
Johan Neeskens – O "motor" da Laranja Mecânica. Marcou o gol mais rápido da história das finais, aos 88 segundos.[reference:41]
Grzegorz Lato – O artilheiro da Copa com 7 gols.[reference:42][reference:43]
Alemanha e Holanda se encontram na decisão
A Alemanha Ocidental começou a Copa com uma derrota inesperada para a Alemanha Oriental por 1×0, na primeira fase.[reference:44] Mas a derrota foi "estratégica": os alemães evitaram cair no grupo de Brasil e Holanda na segunda fase.[reference:45] Na segunda fase, venceu todos os três jogos: 2×0 na Iugoslávia, 4×2 na Suécia e 1×0 na Polônia.[reference:46]
A Holanda passou invicta pela primeira fase: 2×0 no Uruguai, 0×0 na Suécia e 4×1 na Bulgária.[reference:47] Na segunda fase, venceu a Argentina por 4×0, o Brasil por 2×0 e empatou com a Alemanha Oriental por 0×0, garantindo vaga na final.
7 de julho de 1974 – O bicampeonato alemão
7 de julho de 1974 – Estádio Olímpico, Munique. Público de 78.200 espectadores. A final colocou frente a frente a Alemanha Ocidental, em busca do segundo título, e a Holanda, que sonhava com o primeiro.[reference:48]
O início avassalador da Holanda – A Holanda começou o jogo de forma impressionante. Antes que os alemães tocassem na bola, a Laranja Mecânica já tinha um pênalti a seu favor, sofrido por Cruyff em falta de Hoeneß.[reference:49] Aos 2 minutos (88 segundos), Johan Neeskens converteu o pênalti e abriu o placar: 1×0 para a Holanda. Foi o gol mais rápido da história das finais de Copa do Mundo.[reference:50]
A reação alemã – Os experientes alemães não se abateram. Aos 25 minutos, Paul Breitner empatou de pênalti.[reference:51] Aos 43 minutos, Gerd Müller recebeu a bola na área, girou e chutou cruzado, fazendo o gol da virada: 2×1 para a Alemanha.[reference:52][reference:53]
O segundo tempo – A Holanda pressionou, mas Sepp Maier, o goleiro alemão, fez defesas espetaculares e segurou o resultado.[reference:54] O placar permaneceu 2×1 até o fim.
O título – A Alemanha Ocidental venceu por 2×1 e conquistou o bicampeonato mundial (o primeiro foi em 1954). A Holanda, que encantara o mundo com o Futebol Total, ficou com o vice-campeonato.
A Alemanha se torna a quarta seleção bicampeã
A conquista em casa – A Alemanha Ocidental conquistou seu segundo título mundial (o primeiro foi em 1954). Com isso, tornou-se a quarta seleção a ter pelo menos dois títulos mundiais, ao lado de Uruguai, Itália e Brasil.[reference:55]
Uma campanha de superação – Os alemães começaram a Copa com uma derrota para a Alemanha Oriental, mas se recuperaram e venceram todos os jogos da segunda fase e a final.[reference:56]
O "Milagre de Berna" revisitado – Assim como em 1954, a Alemanha venceu na final a seleção que apresentara o melhor futebol do torneio.[reference:57]
O Futebol Total que encantou o mundo
O que foi o Futebol Total? – A Holanda de 1974, comandada pelo técnico Rinus Michels, apresentou um estilo de jogo revolucionário: o Futebol Total. Nesse sistema, todos os jogadores atacavam e defendiam em bloco, sem posições fixas. Quando um jogador saía de sua posição, outro o substituía automaticamente.[reference:58]
O "Carrossel Holandês" – O estilo de jogo rápido, com passes precisos e movimentação constante, rendeu à equipe o apelido de "Carrossel Holandês". A Holanda era a grande sensação do torneio e a favorita ao título.[reference:59]
O líder Johan Cruyff – O cérebro da Laranja Mecânica era Johan Cruyff, que usava a camisa 14 (fugindo da numeração tradicional) e era patrocinado por uma empresa diferente da do restante do elenco.[reference:60] Cruyff marcou três gols na Copa, incluindo um na vitória por 2×0 sobre o Brasil.[reference:61]
A frustração do vice – Apesar de encantar o mundo, a Holanda perdeu a final para a Alemanha. Anos mais tarde, Cruyff diria: "Se ganhássemos, talvez não tivéssemos deixado tantas lembranças como perdendo".[reference:62]
O troféu que não seria mais concedido em definitivo
O fim da Taça Jules Rimet – O Brasil havia conquistado a posse definitiva da Taça Jules Rimet em 1970, após o tricampeonato. A FIFA precisava de um novo troféu para a edição de 1974.[reference:63]
O design de Silvio Gazzaniga – O novo troféu foi desenhado pelo italiano Silvio Gazzaniga. É uma escultura de ouro maciço com 37 centímetros de altura, representando dois atletas segurando o mundo.[reference:64]
A nova regra – Diferentemente da Taça Jules Rimet, a nova Taça da FIFA não seria mais concedida em definitivo a nenhum país, independentemente de quantos títulos conquistasse. O troféu atual permanece na FIFA, e os campeões recebem uma réplica em ouro.[reference:65]
O segundo título alemão
Campanha – A Alemanha Ocidental venceu 5 jogos (Chile, Austrália, Iugoslávia, Suécia, Polônia e Holanda), perdeu 1 (Alemanha Oriental) e não empatou nenhum. Foram 13 gols marcados e 4 sofridos.[reference:66]
Jogadores – O elenco bicampeão contava com grandes nomes: Franz Beckenbauer, Gerd Müller, Paul Breitner, Sepp Maier, Berti Vogts, Uli Hoeneß, Wolfgang Overath.
Técnico – Helmut Schön comandou a equipe com maestria. Ele já havia sido vice-campeão em 1966 e terceiro colocado em 1970. Em 1974, finalmente conquistou o título.[reference:67]
O segundo de quatro – O título de 1974 foi o segundo de quatro conquistas alemãs (1954, 1974, 1990 e 2014). A Alemanha se consolidou como uma das maiores potências do futebol mundial.
Números que contam a história
Destaques: A Iugoslávia aplicou a maior goleada da história das Copas até então: 9×0 sobre o Zaire.[reference:68] A Polônia teve o melhor ataque da fase de grupos (12 gols).[reference:69]
Melhor jogador: Johan Cruyff (Holanda).[reference:70]
Melhor jogador jovem: Władysław Żmuda (Polônia).[reference:71]
Fair Play: Alemanha Ocidental.[reference:72]
Fatos que você talvez não conheça
Como o Futebol Total e o bi alemão marcaram a história
O Futebol Total e a Laranja Mecânica – A Holanda de 1974 é lembrada como uma das maiores seleções que não conquistaram um título mundial. Seu estilo de jogo revolucionário, o Futebol Total, influenciou gerações de treinadores e jogadores em todo o mundo.[reference:84]
A consolidação da Alemanha – O título de 1974 consolidou a Alemanha como uma das maiores potências do futebol mundial. A equipe de Beckenbauer e Gerd Müller mostrou que eficiência, disciplina e raça também são armas poderosas.
O fim da hegemonia brasileira – O Brasil, que havia dominado o futebol mundial entre 1958 e 1970, não conseguiu chegar à final e terminou em quarto lugar. A Seleção só voltaria a conquistar um título em 1994.[reference:85]
A nova Taça da FIFA – A Copa de 1974 marcou a estreia do novo troféu, que não seria mais concedido em definitivo. O Brasil, que havia conquistado a Taça Jules Rimet em definitivo, precisaria esperar 20 anos para levantar o novo prêmio.[reference:86]
A primeira Copa na Alemanha – A Alemanha finalmente sediou uma Copa do Mundo, após décadas de espera. O torneio foi um sucesso de organização e público, com mais de 1,7 milhão de espectadores.[reference:87]