A história completa da Copa em que a Inglaterra conquistou seu único título, Eusébio brilhou por Portugal e o Brasil bicampeão foi eliminado ainda na primeira fase.
A Guerra Fria, o Brasil de Castelo Branco e o futebol como palco de disputas
O cenário mundial – Em 1966, o mundo vivia sob a tensão da Guerra Fria. A Guerra do Vietnã se intensificava, e os Estados Unidos e a União Soviética disputavam influência em todos os continentes. O futebol, mais uma vez, servia como palco para rivalidades políticas e culturais.
O Brasil de Castelo Branco – O Brasil vivia sob o regime militar instaurado em 1964. O presidente Humberto de Alencar Castelo Branco governava o país. Apesar da instabilidade política, a seleção brasileira, bicampeã mundial, chegava à Inglaterra como uma das favoritas ao título.[reference:0]
O boicote africano – A Copa de 1966 foi marcada por um boicote de 15 nações africanas, que protestaram contra a decisão da FIFA de obrigar o vencedor da zona africana a enfrentar o vencedor da zona asiática para se classificar.[reference:1][reference:2] Os africanos consideravam que vencer sua zona já deveria garantir uma vaga. Como resultado, nenhuma seleção africana participou do torneio.[reference:3]
A primeira Copa no mundo de língua inglesa – Esta foi a primeira Copa do Mundo realizada em um país de língua inglesa.[reference:4] A Inglaterra, berço do futebol moderno, jamais havia sediado o torneio. A expectativa era enorme.
O berço do futebol finalmente recebe a Copa
A escolha da Inglaterra – Em 22 de agosto de 1960, durante o Congresso da FIFA em Roma, a Inglaterra foi escolhida como sede da Copa de 1966.[reference:5][reference:6] A candidatura inglesa venceu a da Alemanha Ocidental por 34 votos a 27. A Espanha havia desistido da candidatura antes da votação.[reference:7][reference:8]
Oito estádios em sete cidades – Os jogos foram realizados em oito estádios:
A primeira mascote da história – A Copa de 1966 foi a primeira a ter uma mascote oficial: o leão Willie, vestindo uma camisa com a bandeira do Reino Unido.[reference:9][reference:10] Willie foi criado pelo ilustrador Reg Hoye.[reference:11]
16 equipes em busca da glória
Participantes – 16 seleções disputaram a Copa de 1966. Foram 10 europeias, 4 sul-americanas, 1 asiática e 1 da América do Norte.
Estreantes – Coreia do Norte e Portugal fizeram sua primeira participação em Copas.[reference:13]
Ausências de peso – A África esteve completamente ausente devido ao boicote.[reference:14] A Itália, bicampeã mundial (1934 e 1938), foi eliminada na fase de grupos pela Coreia do Norte em uma das maiores zebras da história.[reference:15]
Fase de grupos e mata-mata
O regulamento – A Copa de 1966 manteve o formato de fase de grupos seguida por mata-mata. As 16 seleções foram divididas em quatro grupos com quatro equipes cada, que se enfrentaram em turno único.
Classificação – Os dois primeiros colocados de cada grupo avançaram para as quartas de final. A partir daí, o torneio passou a ser de eliminação direta (quartas, semifinal, disputa de terceiro lugar e final).
Os cabeças de série – O sorteio foi realizado em 6 de janeiro de 1966 no Royal Garden Hotel em Londres.[reference:17][reference:18] Os cabeças de série foram: Inglaterra, Brasil, Alemanha Ocidental e Itália.[reference:19] A FIFA usou um sistema de "potes" para separar as equipes sul-americanas e manter Brasil e Inglaterra em grupos diferentes.[reference:20]
A despedida amarga do bicampeão
O Brasil chegou à Inglaterra com a mesma base de 1958 e 1962, comandada novamente pelo técnico Vicente Feola.[reference:21] A preparação foi conturbada: 47 jogadores foram convocados inicialmente, o que foi tratado como exemplo da "bagunça" da preparação.[reference:22] O Brasil era o favorito nas casas de apostas inglesas.[reference:23]
Brasil 2×0 Bulgária – Estreia com vitória. Pelé e Garrincha marcaram os gols, ambos de bola parada. Foi a última partida em que Pelé e Garrincha atuaram juntos pela Seleção.[reference:24] No total, foram 40 partidas entre 1958 e 1966, sem nenhuma derrota.[reference:25]
Brasil 1×3 Hungria – Pelé, machucado devido ao jogo duro dos búlgaros, não atuou.[reference:26] O jogo marcou o fim do recorde de maior número de partidas consecutivas sem perder de um país em Copas: eram 13 jogos invictos, marca que persiste até hoje.[reference:27] A última derrota do Brasil havia sido contra a mesma Hungria, na "Batalha de Berna" em 1954.[reference:28] Foi a única partida que a seleção perdeu com Garrincha em campo.[reference:29]
Brasil 1×3 Portugal – Jogo decisivo. Inseguro, Feola fez nove alterações para esta partida, incluindo a troca de Gylmar por Manga no gol, o retorno de Pelé e Denílson, e Garrincha indo para a reserva.[reference:30] A partida ficou marcada pelas jogadas violentas contra Pelé, em entradas duras dos portugueses que não foram advertidas pelo árbitro.[reference:31] Portugal venceu por 3×1 e eliminou o Brasil.[reference:32] Foi a segunda vez que uma seleção defendendo o título foi eliminada na primeira fase; a primeira foi a Itália em 1950.[reference:33][reference:34]
Os craques que brilharam na Inglaterra
Bobby Moore – O capitão da Inglaterra. Considerado um dos maiores zagueiros da história. Liderou a equipe com maestria e ergueu a taça Jules Rimet.
Geoff Hurst – O herói da final. Marcou um hat-trick na decisão contra a Alemanha Ocidental, o único na história das finais de Copa do Mundo.[reference:35]
Bobby Charlton – O melhor jogador da Copa.[reference:36] Meia-atacante do Manchester United, era o cérebro da equipe.
Gordon Banks – Um dos maiores goleiros da história. Fez defesas espetaculares ao longo do torneio.
Eusébio – O artilheiro da Copa com 9 gols.[reference:37] Nascido em Moçambique, colônia portuguesa, ele foi o grande nome do torneio.[reference:38]
Pelé – O Rei marcou um gol na estreia, mas foi caçado pelos adversários e se machucou, não atuando contra a Hungria e sendo alvo de violência contra Portugal.
Garrincha – O "Anjo das Pernas Tortas" disputou sua última Copa. Marcou um gol contra a Bulgária, mas não conseguiu evitar a eliminação.
Inglaterra e Alemanha Ocidental se reencontram
A Inglaterra passou invicta pela fase de grupos: venceu México (2×0) e França (2×0) e empatou com o Uruguai (0×0).[reference:39] Nas quartas, venceu a Argentina por 1×0. Na semifinal, venceu Portugal por 2×1.
A Alemanha Ocidental também fez uma campanha sólida. Venceu a Suíça por 5×0, empatou com a Argentina (0×0) e venceu a Espanha (2×1). Nas quartas, venceu o Uruguai por 4×0. Na semifinal, venceu a União Soviética por 2×1.
30 de julho de 1966 – O triunfo inglês
30 de julho de 1966 – Estádio de Wembley, Londres. Público de 96.924 espectadores. A final colocou frente a frente a Inglaterra, em busca do primeiro título, e a Alemanha Ocidental, que sonhava com o bicampeonato.
O jogo – A Alemanha começou melhor. Aos 12 minutos, Helmut Haller abriu o placar. A Inglaterra empatou aos 18 minutos com Geoff Hurst. O primeiro tempo terminou empatado em 1×1.[reference:40]
A virada inglesa – Aos 33 minutos do segundo tempo, Martin Peters marcou o gol que colocou a Inglaterra na frente: 2×1.[reference:41]
O empate alemão – Nos acréscimos, aos 44 minutos do segundo tempo, Wolfgang Weber empatou para a Alemanha: 2×2. O jogo foi para a prorrogação.[reference:42]
A prorrogação e o gol fantasma – Aos 11 minutos do primeiro tempo da prorrogação, Geoff Hurst chutou forte, a bola bateu no travessão e caiu. O árbitro assistente sinalizou gol. A bola havia ultrapassado a linha? Até hoje a discussão permanece.[reference:43][reference:44] A Inglaterra fez 3×2.
O hat-trick de Hurst – Nos últimos segundos da prorrogação, Hurst recebeu a bola e chutou para o gol, fazendo 4×2 e completando seu hat-trick.[reference:45] Ele se tornou o primeiro (e único) jogador a marcar três gols em uma final de Copa do Mundo.[reference:46][reference:47]
O título – A Inglaterra venceu por 4×2 e conquistou o primeiro (e até hoje único) título mundial de sua história.[reference:48][reference:49] Foi a primeira vez desde 1934 que o país-sede venceu a Copa.[reference:50][reference:51]
O único título da nação que inventou o futebol
A conquista inédita – A Inglaterra, berço do futebol moderno, finalmente conquistou seu primeiro título mundial. Até hoje, é o único título da seleção inglesa em Copas do Mundo.[reference:52]
O técnico Alf Ramsey – Sir Alf Ramsey foi o estrategista que montou a equipe campeã. Ele apostou em um sistema tático que ficou conhecido como "Wingless Wonders" (Maravilhas sem Pontas), com um meio-campo forte e laterais que atacavam.[reference:53]
A defesa invicta – A Inglaterra não sofreu nenhum gol na fase de grupos.[reference:54] Ao longo de todo o torneio, sofreu apenas 3 gols em 6 jogos.
O "Pantera Negra" encanta o mundo
O artilheiro da Copa – Eusébio da Silva Ferreira, o "Pantera Negra", foi o artilheiro do torneio com 9 gols.[reference:55][reference:56] Nascido em Moçambique, colônia portuguesa, ele se tornou o grande nome da seleção portuguesa.[reference:57]
Atuações memoráveis – Eusébio foi decisivo nas quartas de final contra a Coreia do Norte. Portugal perdia por 3×0, mas Eusébio marcou 4 gols e virou o jogo para 5×3. Sua atuação é lembrada como uma das mais brilhantes da história das Copas.
O reconhecimento – Eusébio terminou a Copa com 9 gols, três a mais que o segundo colocado, Helmut Haller, da Alemanha Ocidental.[reference:58] Ele foi eleito o melhor jogador europeu do ano em 1965 e é considerado um dos maiores jogadores de todos os tempos.
O primeiro e único título inglês
Campanha – A Inglaterra venceu 5 jogos (México, França, Argentina, Portugal e Alemanha Ocidental) e empatou 1 (Uruguai). Foram 11 gols marcados e 3 sofridos.
Jogadores – O elenco campeão contava com grandes nomes: Gordon Banks, George Cohen, Jack Charlton, Bobby Moore, Nobby Stiles, Alan Ball, Bobby Charlton, Geoff Hurst, Martin Peters e Roger Hunt.[reference:59]
Técnico – Sir Alf Ramsey comandou a equipe com maestria, tornando-se o primeiro técnico inglês a vencer uma Copa do Mundo.
O único título – Até hoje, a Inglaterra nunca mais venceu uma Copa do Mundo. O título de 1966 continua sendo o maior feito da história do futebol inglês.
Números que contam a história
Destaques: A Inglaterra teve a melhor defesa da fase de grupos (nenhum gol sofrido). Portugal teve o melhor ataque da fase de grupos (9 gols).[reference:60]
Fatos que você talvez não conheça
Como o título inglês e a eliminação brasileira marcaram a história
O único título inglês – A Copa de 1966 é lembrada como o momento mais glorioso do futebol inglês. A Inglaterra, berço do futebol, finalmente conquistou o título mundial. Até hoje, é o único título da seleção inglesa.
O fim da hegemonia brasileira – A eliminação do Brasil na fase de grupos marcou o fim de uma era. A seleção bicampeã (1958 e 1962) caiu de forma precoce e surpreendente. Pelé e Garrincha, os grandes ídolos, nunca mais jogariam juntos.
A ascensão de Portugal – Portugal fez sua estreia em Copas e conquistou o terceiro lugar, com Eusébio como artilheiro do torneio. O país se consolidou como uma potência do futebol europeu.
O gol fantasma e a polêmica – O terceiro gol da final, de Geoff Hurst, gerou décadas de debate. Estudos posteriores com computadores indicaram que a bola não havia ultrapassado completamente a linha.[reference:75] Até hoje, a polêmica permanece.
O legado para o Brasil – A eliminação de 1966 foi um trauma para o Brasil, que só voltaria a conquistar o título em 1970, no México, com a melhor seleção de todos os tempos.