A história completa da Copa em que o Brasil conquistou o bicampeonato mundial, mesmo sem Pelé, com Garrincha como grande estrela e o país-sede reconstruído após um terremoto devastador.
A Guerra Fria, o desenvolvimento do Brasil e a consolidação do futebol-arte
O cenário mundial – Em 1962, o mundo vivia sob a tensão da Guerra Fria. A crise dos mísseis de Cuba ocorreria no mesmo ano, elevando o risco de conflito nuclear a níveis nunca antes vistos. Os Estados Unidos e a União Soviética disputavam influência global, e o futebol, mais uma vez, servia como palco para rivalidades geopolíticas.
O Brasil de João Goulart – O Brasil vivia um momento de instabilidade política. João Goulart havia assumido a presidência após a renúncia de Jânio Quadros em 1961. O país enfrentava crises econômicas e tensões sociais, mas o futebol era uma válvula de escape e motivo de orgulho nacional. A conquista do bi campeonato mundial uniria o país em torno da seleção.
O Brasil era o favorito – Campeão em 1958, o Brasil chegava ao Chile com a mesma base da Copa anterior. A seleção era considerada a grande favorita ao título. As casas de apostas inglesas pagavam 1.5 pela vitória brasileira[reference:0]. A Argentina, o Uruguai e a União Soviética eram outros candidatos[reference:1].
A primeira defesa de título da história – O Brasil tinha a chance de se tornar o segundo país a conquistar dois títulos mundiais consecutivos, feito que apenas a Itália havia alcançado em 1934 e 1938. A missão era defender a taça Jules Rimet em solo sul-americano.
A superação após o maior terremoto da história
A escolha do Chile – Em junho de 1956, no Congresso da FIFA em Lisboa, o Chile foi escolhido como sede com 32 votos, contra apenas 10 da Argentina[reference:2]. A vitória chilena foi uma surpresa, pois a Argentina era considerada favorita para sediar o torneio[reference:3].
O terremoto de 1960 – Em maio de 1960, o Chile foi devastado pelo maior terremoto já registrado na história, com 9,5 pontos na escala Richter[reference:4]. O tremor deixou 5 mil mortos e 25% da população desabrigada[reference:5]. Quatro das oito cidades-sede previstas (Talca, Concepción, Talcahuano e Valdivia) foram destruídas e tiveram que abandonar os planos[reference:6].
"Porque nada tenemos, lo haremos todo" – Diante da tragédia, o presidente da comissão organizadora, Carlos Dittborn, pronunciou a frase que se tornou o slogan da Copa: "Porque nada tenemos, lo haremos todo" (porque nada temos, faremos tudo)[reference:7]. A FIFA deu um voto de confiança ao Chile, e as obras foram concluídas em tempo recorde[reference:8]. Dittborn, porém, não viveu para ver o resultado: sofreu um ataque cardíaco em 28 de abril de 1962, um mês antes da Copa[reference:9]. O estádio de Arica foi batizado em sua homenagem[reference:10].
Os estádios – Quatro estádios foram utilizados em quatro cidades[reference:11]:
16 equipes em busca da glória
Participantes – 16 seleções disputaram a Copa de 1962. Foram 10 europeias e 6 americanas[reference:18]. Esta foi a última edição com apenas equipes da Europa e das Américas[reference:19].
Estreantes – Bulgária e Colômbia fizeram sua primeira participação em Copas[reference:20].
Ausências de peso – O Uruguai, bicampeão mundial (1930 e 1950), foi eliminado na fase de grupos[reference:21]. A Itália, bicampeã (1934 e 1938), também caiu na primeira fase[reference:22]. A França, terceira colocada em 1958, não se classificou.
Fase de grupos e mata-mata
O regulamento – A Copa de 1962 manteve o formato de fase de grupos seguida por mata-mata. As 16 seleções foram divididas em quatro grupos com quatro equipes cada, que se enfrentaram em turno único[reference:24].
Classificação – Os dois primeiros colocados de cada grupo avançaram para as quartas de final. A partir daí, o torneio passou a ser de eliminação direta (quartas, semifinal, disputa de terceiro lugar e final).
Critério de desempate – Na época, a vitória valia 2 pontos, o empate 1 ponto. O saldo de gols era o critério de desempate.
Invicta, com 14 gols marcados e apenas 5 sofridos
O Brasil chegou ao Chile com a mesma base de 1958, comandada pelo técnico Aymoré Moreira[reference:26]. A campanha foi invicta, com 5 vitórias e 1 empate em 6 jogos, 14 gols marcados e 5 sofridos[reference:27].
Brasil 2×0 México – Estreia com gol de Pelé, que driblou toda a defesa mexicana antes de tocar na saída do goleiro[reference:31]. Zagallo marcou o outro gol[reference:32].
Brasil 0×0 Tchecoslováquia – Pelé se contundiu e não voltaria a atuar na Copa[reference:33]. Amarildo teve a difícil missão de substituir o Rei[reference:34].
Brasil 2×1 Espanha – Jogo dramático e de virada[reference:35]. Amarildo marcou os dois gols, provando que daria conta da missão[reference:36].
Brasil 3×1 Inglaterra – A seleção brasileira "decolou" a partir das quartas[reference:38]. Garrincha marcou dois gols[reference:39]. Vavá fez o terceiro[reference:40]. Os jornais chilenos estamparam: "¿Garrincha, de que planeta vienes?"[reference:41].
Brasil 4×2 Chile – Garrincha "deitou e rolou"[reference:44]. Fez dois gols no primeiro tempo[reference:45]. Vavá marcou outros dois[reference:46]. O Brasil estava na final.[reference:47]
Os craques que encantaram o mundo em 1962
Garrincha – O melhor jogador da Copa[reference:49]. Com seus dribles desconcertantes, foi o grande responsável pela conquista[reference:50]. Marcou 4 gols e foi artilheiro ao lado de Vavá[reference:51].
Vavá – O artilheiro do Brasil ao lado de Garrincha, com 4 gols[reference:52]. Tornou-se o grande goleador dos dois primeiros títulos mundiais do Brasil[reference:53].
Amarildo – O herói improvável. Substituiu Pelé após a lesão e marcou gols decisivos contra a Espanha e na final[reference:54][reference:55].
Zito – Marcou o gol da virada na final[reference:56].
Mauro – O capitão que ergueu a taça Jules Rimet[reference:57].
Josef Masopust – O cérebro da Tchecoslováquia. Marcou o primeiro gol da final[reference:58]. Foi eleito o melhor jogador europeu do ano em 1962.
Leonel Sánchez – O artilheiro do Chile, com 4 gols, ao lado de Garrincha, Vavá e outros[reference:59].
Brasil e Tchecoslováquia se reencontram
O Brasil passou invicto pela fase de grupos (1 vitória e 2 empates? Na verdade: 2 vitórias e 1 empate). Nas quartas, venceu a Inglaterra por 3×1. Na semifinal, goleou o Chile por 4×2.
A Tchecoslováquia, por sua vez, ficou em segundo no Grupo 3, atrás do Brasil, com 1 vitória, 1 empate e 1 derrota. Na fase de grupos, perdeu de virada para o México por 3–1[reference:60]. Nas quartas, venceu a Hungria por 1×0. Na semifinal, venceu a Iugoslávia por 3×1.
17 de junho de 1962 – O bicampeonato
17 de junho de 1962 – Estádio Nacional, Santiago. Público estimado em 68.679 pessoas[reference:61]. A final colocou frente a frente o Brasil, em busca do bi, e a Tchecoslováquia, que sonhava com o título inédito.
O jogo – A Tchecoslováquia começou melhor. Aos 15 minutos, Josef Masopust abriu o placar para os tchecoslovacos[reference:62]. O Brasil não se abateu. Apenas dois minutos depois, aos 17 minutos, Amarildo empatou o jogo[reference:63]. O primeiro tempo terminou em 1×1.
A virada – No segundo tempo, o Brasil dominou. Aos 24 minutos, Zito marcou o gol da virada[reference:64]. Nove minutos depois, aos 33 minutos, Vavá ampliou a diferença, fechando o placar em 3×1[reference:65].
O título – O Brasil venceu por 3×1 e conquistou o bicampeonato mundial[reference:66]. O capitão Mauro Ramos ergueu a taça Jules Rimet[reference:67]. O Brasil se tornava o segundo país a conquistar dois títulos consecutivos, depois da Itália (1934 e 1938).
A consolidação de uma potência
A defesa do título – O Brasil se tornou o segundo país a conquistar dois títulos mundiais consecutivos[reference:68]. Apenas a Itália (1934 e 1938) havia alcançado esse feito antes[reference:69].
A superação sem Pelé – A conquista foi ainda mais especial porque o Brasil perdeu seu principal jogador, Pelé, no segundo jogo da Copa[reference:70]. A equipe mostrou força, resiliência e profundidade de elenco para vencer o torneio.[reference:71]
O reconhecimento mundial – O bicampeonato consolidou o Brasil como a maior potência do futebol mundial da época. O "jogo bonito" era admirado em todo o planeta.[reference:72]
O "Anjo das Pernas Tortas" brilha
O protagonista – A Copa de 1962 ficou conhecida como a "Copa de Garrincha"[reference:73]. Com a lesão de Pelé, Mané Garrincha assumiu a responsabilidade e foi o grande nome da seleção[reference:74].
Atuações memoráveis – Garrincha foi decisivo nas quartas de final contra a Inglaterra (2 gols)[reference:75] e na semifinal contra o Chile (2 gols)[reference:76]. Suas habilidades, dribles e personalidade encantaram o mundo.[reference:77]
O melhor jogador da Copa – Garrincha foi eleito o melhor jogador da Copa de 1962[reference:78]. Ele também foi o artilheiro do torneio ao lado de Vavá e outros quatro jogadores, com 4 gols[reference:79].
O segundo título de uma dinastia
Campanha – O Brasil venceu 5 jogos (México, Espanha, Inglaterra, Chile e Tchecoslováquia) e empatou 1 (Tchecoslováquia na fase de grupos). Foram 14 gols marcados e 5 sofridos[reference:80].
Jogadores – O elenco bicampeão contava com grandes nomes: Garrincha, Vavá, Amarildo, Zagallo, Didi, Nílton Santos, Djalma Santos, Mauro, Zito, Gilmar e Pelé[reference:81].
Técnico – Aymoré Moreira comandou a equipe com maestria, mantendo a base de 1958 e lidando com a lesão de Pelé[reference:82].
O segundo de cinco – O título de 1962 foi o segundo de cinco conquistas brasileiras (1958, 1962, 1970, 1994 e 2002). O Brasil se consolidou como a maior potência do futebol mundial.
Números que contam a história
Artilheiros: Garrincha (BRA), Vavá (BRA), Flórián Albert (HUN), Dražan Jerković (IUG), Leonel Sánchez (CHI) e Valentin Ivanov (URS) – todos com 4 gols[reference:88].
Gol olímpico: O colombiano Marco Coll marcou o primeiro (e até hoje único) gol olímpico da história das Copas, na partida entre União Soviética e Colômbia (4–4)[reference:89][reference:90].
Fatos que você talvez não conheça
Como o bicampeonato consolidou o Brasil como potência
A consolidação do futebol-arte – O Brasil de 1962 confirmou que o "jogo bonito" não era um acaso. A seleção mostrou força, resiliência e talento para vencer mesmo sem seu principal jogador.[reference:102]
A consagração de Garrincha – Garrincha se tornou um ícone global. Sua atuação na Copa de 1962 é lembrada como uma das mais brilhantes da história do futebol.[reference:103]
O início de uma dinastia – O título de 1962 foi o segundo de cinco conquistados pelo Brasil. A seleção se tornou a maior vencedora da história das Copas.
O impacto no Brasil – O bicampeonato uniu o país em um momento de instabilidade política. O futebol se tornou um símbolo da identidade nacional e uma fonte de orgulho para os brasileiros.
A superação chilena – O Chile mostrou ao mundo sua capacidade de superação ao organizar uma Copa exemplar após um terremoto devastador.[reference:104]