A história da edição que nunca aconteceu. Entre candidaturas de Brasil, Argentina e Alemanha, a Segunda Guerra Mundial interrompeu o sonho do futebol mundial — mas uma "final não oficial" em Berlim entrou para a história.
A Europa em chamas e o sonho do futebol adiado
Em 1938, a Itália conquistou seu segundo título mundial consecutivo ao vencer a Hungria na final da Copa da França. O mundo do futebol já se preparava para a quarta edição do torneio, que seria realizada em 1942[reference:0]. Mas o cenário internacional era sombrio.
Em setembro de 1939, a Alemanha nazista invadiu a Polônia, dando início à Segunda Guerra Mundial[reference:1]. O conflito, que duraria até 1945, devastaria a Europa e mudaria para sempre a história do futebol[reference:2].
As Copas do Mundo de 1942 e 1946 seriam as únicas edições canceladas na história do torneio[reference:3]. O Mundial só voltaria a ser disputado 12 anos depois, em 1950, no Brasil[reference:4].
Brasil, Argentina e Alemanha na disputa
Durante o 24º Congresso da FIFA, realizado em Paris em 3 de junho de 1938, três países se candidataram a sediar o Mundial de 1942: Alemanha, Argentina e Brasil[reference:5].
A Alemanha, comandada por Adolf Hitler, havia sediado os Jogos Olímpicos de 1936 em Berlim e já havia sido preterida em favor da França no congresso anterior[reference:6]. Sua infraestrutura era superior à dos concorrentes, o que representava uma vantagem considerável[reference:7].
Brasileiros e argentinos, por sua vez, defendiam que a competição voltasse a ser disputada na América do Sul, depois de duas edições consecutivas na Europa[reference:8].
O presidente da FIFA, Jules Rimet, adiou a decisão para o congresso seguinte, marcado para 1940, em Luxemburgo[reference:9]. Em março e abril de 1939, Rimet visitou Argentina, Brasil e Alemanha para conhecer as instalações dos três países[reference:10].
| País candidato | Vantagens | Desvantagens |
|---|---|---|
| 🇩🇪 Alemanha | Infraestrutura superior, experiência olímpica | Risco de guerra, regime nazista |
| 🇦🇷 Argentina | Retorno da Copa à América do Sul | Infraestrutura inferior à da Alemanha |
| 🇧🇷 Brasil | Retorno da Copa à América do Sul | Infraestrutura em desenvolvimento |
Quando a guerra falou mais alto
Em setembro de 1939, a Alemanha invadiu a Polônia, e a Segunda Guerra Mundial estava em curso[reference:12]. No mês seguinte, o comitê executivo da FIFA, reunido em Berna, cancelou o congresso de 1940[reference:13].
A Confederação Sul-Americana de Futebol, reunida em Santiago em 1940, anunciou que adiaria para depois da guerra o seu apoio a Brasil ou Argentina[reference:14].
Com a Europa em chamas e a guerra se espalhando, ficou claro que a Copa de 1942 não poderia ser realizada[reference:15]. O país-sede nem chegou a ser escolhido pela FIFA[reference:16].
O jogo que, para muitos, substituiu a Copa
Embora a Copa de 1942 nunca tenha sido realizada oficialmente, ela teve uma "final" — um amistoso entre Alemanha e Suécia disputado em Berlim[reference:17][reference:18].
A história começa em 20 de abril de 1942, aniversário de 53 anos de Adolf Hitler. Neste dia, a seleção da Alemanha recebeu a Suíça, que se manteve neutra durante a guerra, e perdeu por 2 a 1, deixando o líder do III Reich furioso[reference:19][reference:20].
O regime nazista então deu um "ultimato" aos jogadores: caso voltassem a ser derrotados, seriam enviados para lutar na guerra[reference:21][reference:22]. Com esse "incentivo especial", os atletas alemães venceram seus próximos compromissos contra países do Eixo: 5 a 3 na Hungria, 3 a 0 na Bulgária e 7 a 0 na Romênia[reference:23].
Empolgados, os nazistas resolveram limpar a imagem da derrota para a Suíça e convocaram a Suécia, considerada à época a melhor seleção da Europa, para um amistoso no Estádio Olímpico de Berlim[reference:24][reference:25].
A "final" que a história não esqueceu
Em 20 de setembro de 1942, 98 mil torcedores lotaram o Estádio Olímpico de Berlim para aquela que é considerada pelos historiadores do futebol como a "final não oficial" da Copa do Mundo de 1942[reference:27].
O jogo – Com apenas 7 minutos de primeiro tempo, a Suécia abriu o placar[reference:28]. A Alemanha empatou, mas os suecos marcaram mais dois gols, vencendo por 3 a 2[reference:29].
A derrota diante de 98 mil torcedores, no aniversário de Hitler, foi um golpe duro para o regime nazista. A Suécia, neutra na guerra, havia derrotado a "raça ariana" em seu próprio estádio.
O preço que o esporte pagou
A Segunda Guerra Mundial não apenas cancelou duas Copas, mas também interrompeu ligas nacionais e ceifou a vida de milhares de jogadores e dirigentes.
Na Alemanha, o futebol não parou completamente durante a guerra. A liga alemã só foi interrompida em 1945, quando os Aliados invadiram Berlim[reference:30]. O Schalke 04 foi campeão em 1939, 1940 e 1944; o Dresdner ganhou em 1943 e 1944; e o Austria Wien faturou a taça em 1941 (a Áustria havia sido anexada pela Alemanha no início da guerra)[reference:31].
Muitos jogadores europeus foram convocados para o front e nunca mais voltaram. O futebol, como tantas outras atividades humanas, foi vítima do maior conflito armado da história.
Uma edição que nunca existiu, mas nunca será esquecida
A Copa do Mundo de 1942 não consta em nenhum livro de História como uma edição realizada[reference:32]. No entanto, sua história — de candidaturas, cancelamento e uma "final não oficial" — é parte fundamental da memória do futebol mundial.
O cancelamento da Copa de 1942 e de 1946 serve como um lembrete do poder destrutivo da guerra e da importância do esporte como ferramenta de união e paz.
Quando o Mundial voltou a ser disputado em 1950, no Brasil, foi um momento de renascimento para o futebol e para o mundo[reference:33].
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