A história completa da Copa em que a Itália confirmou seu favoritismo e conquistou o bicampeonato mundial, enquanto o Brasil, liderado por Leônidas da Silva, fez sua melhor campanha até então, em meio ao clima pré-Segunda Guerra.
A Europa às vésperas da guerra e o avanço do fascismo
O cenário mundial – Em 1938, a Europa vivia sob a sombra de um novo conflito. O nazismo de Adolf Hitler e o fascismo de Benito Mussolini avançavam, e a Segunda Guerra Mundial começaria no ano seguinte.[reference:0] A Alemanha nazista já havia anexado a Áustria em março de 1938, no que ficou conhecido como Anschluss – um evento que impactaria diretamente a Copa.[reference:1][reference:2]
A Itália de Mussolini – A Itália, campeã mundial em 1934 e campeã olímpica em 1936, chegava à França com a missão de confirmar sua hegemonia no futebol mundial. O ditador Benito Mussolini via o título como uma ferramenta de propaganda política e exigia a vitória de sua seleção.[reference:3][reference:4]
O Brasil de Getúlio Vargas – O Brasil vivia o Estado Novo, regime autoritário instaurado por Getúlio Vargas em 1937. Pela primeira vez, o país conseguiu superar as brigas internas entre cariocas e paulistas que haviam atrapalhado as edições anteriores, e enviou à França sua força máxima.[reference:5][reference:6]
A França de Jules Rimet – A escolha da França como sede foi uma homenagem a Jules Rimet, presidente da Fifa e idealizador da Copa do Mundo.[reference:7] O torneio seria realizado em meio a um clima de tensão política e boicotes.[reference:8]
A homenagem a Jules Rimet em meio à tensão geopolítica
A escolha da França – Três países se candidataram para sediar a Copa de 1938: Alemanha, Argentina e França.[reference:9] A Alemanha, que organizava os Jogos Olímpicos de 1936, queria outro evento para a propaganda nazista de Hitler. A Argentina esperava sua vez por um rodízio de continentes. Mas, em agosto de 1936, durante as Olimpíadas de Berlim, o Congresso da Fifa decidiu, como homenagem a Jules Rimet (que já tinha 64 anos) e a Henri Delaunay, fazer a Copa na França.[reference:10]
O boicote sul-americano – A escolha da França, a segunda edição consecutiva na Europa, provocou a ira da Argentina, que liderou um boicote dos países sul-americanos.[reference:11] Quase todas as seleções do continente não se inscreveram, com exceção de Brasil e Cuba, que conquistaram vagas automaticamente.[reference:12][reference:13]
A anexação da Áustria – A Áustria havia se classificado para a Copa, mas, com a anexação pela Alemanha nazista em março de 1938, foi impedida de participar.[reference:14] Com isso, o torneio ficou com apenas 15 seleções, e a Suécia avançou por W.O. (walkover) – o único caso de W.O. na história das Copas.[reference:15][reference:16]
Os estádios – Dez estádios em dez cidades francesas sediaram os jogos[reference:17]. Dois estádios foram construídos especificamente para o Mundial: o Vélodrome, em Marselha (1937), e o Parc Lescure, em Bordeaux (1938)[reference:18]. O Estádio Olímpico de Colombes, em Paris, com capacidade para cerca de 60 mil pessoas, sediou a final.[reference:19]
Apenas 15 equipes, em um torneio marcado por boicotes e ausências
Participantes – 15 seleções disputaram a Copa de 1938[reference:20]. Doze eram europeias, duas americanas (Brasil e Cuba) e uma asiática (Índias Orientais Neerlandesas, atual Indonésia)[reference:21]. Esta foi a primeira vez que um país asiático participou de uma Copa do Mundo.[reference:22]
Estreantes – Cuba e as Índias Orientais Neerlandesas (atual Indonésia) fizeram sua primeira e única participação em Copas.[reference:23][reference:24]
Ausências de peso – A Áustria foi a grande ausência, por conta da anexação nazista.[reference:25] A Argentina, vice-campeã em 1930, boicotou o torneio.[reference:26] A Espanha, em plena guerra civil, não pôde disputar as eliminatórias.[reference:27] A Inglaterra, que ainda não fazia parte da Fifa, também não participou.[reference:28]
Mata-mata desde o início, com jogos de desempate
O regulamento – A Copa de 1938 manteve o formato da edição de 1934: eliminação direta (mata-mata) desde as oitavas de final.[reference:31][reference:32] Esta foi a última vez que esse formato foi utilizado em uma Copa.[reference:33]
Desempate – Em caso de empate após os 90 minutos regulamentares, era disputada uma prorrogação de 30 minutos. Se o empate persistisse, um novo jogo de desempate era marcado para o dia seguinte[reference:34] – a disputa por pênaltis ainda não havia sido adotada.
Sorteio – O sorteio ocorreu em 5 de maio de 1938 e foi realizado por Yves Rimet, neto do presidente da Fifa Jules Rimet.[reference:35]
A melhor campanha brasileira até então, com 14 gols marcados
O Brasil chegou à França com sua força máxima, sob o comando do técnico Ademar Pimenta.[reference:37] A campanha foi a melhor do país até então: 3 vitórias, 1 empate e 1 derrota em 5 jogos, com 14 gols marcados e 11 sofridos.[reference:38]
Brasil 6×5 Polônia – Um dos jogos mais emocionantes da história das Copas. O Brasil vencia por 3 a 1, mas a Polônia empatou em 4 a 4 no tempo normal[reference:40]. Na prorrogação, o Brasil venceu por 6 a 5. Leônidas marcou três gols, um deles descalço, em um campo encharcado pela chuva.[reference:41][reference:42] O atacante polonês Ernst Wilimowski fez quatro gols.[reference:43] Este jogo marcou a primeira transmissão internacional de rádio para o Brasil, narrada por Gagliano Netto.[reference:44]
A "Batalha de Bordeaux" – O primeiro jogo ficou conhecido como a "Batalha de Bordeaux" pela violência em campo[reference:47][reference:48]. Três jogadores foram expulsos: os brasileiros Zezé Procópio e Martim, e o tcheco Jan Říha[reference:49]. O empate em 1 a 1 (gol de Leônidas) forçou um jogo de desempate dois dias depois, vencido pelo Brasil por 2 a 1, com gols de Leônidas e Roberto.[reference:50]
Brasil 1×2 Itália – O Brasil não contou com Leônidas, que estava contundido – uma decisão do técnico Ademar Pimenta que é contestada até hoje[reference:53][reference:54]. A Itália venceu por 2 a 1, com gols de Colaussi e Meazza (de pênalti)[reference:55]. O pênalti foi cometido por Domingos da Guia sobre Piola, em um lance que ficou conhecido como "domingada"[reference:56].
Brasil 4×2 Suécia – O Brasil garantiu o terceiro lugar, sua melhor colocação em Copas até então[reference:58][reference:59]. Leônidas marcou dois gols e encerrou a Copa como artilheiro do torneio, com sete gols.[reference:60]
Os craques que encantaram o mundo em 1938
Giuseppe Meazza – O capitão da Itália e um dos maiores jogadores da história. Craque e líder em campo, marcou o gol de pênalti decisivo na semifinal contra o Brasil[reference:61]. É lembrado até hoje pelo episódio em que o elástico de seu calção arrebentou na hora de bater o pênalti[reference:62].
Silvio Piola – O artilheiro da Itália na Copa, com 5 gols[reference:63]. Rápido e oportunista, foi um dos grandes destaques do torneio, marcando dois gols na final[reference:64].
Gino Colaussi – Marcou 4 gols na Copa[reference:65], sendo dois deles na final contra a Hungria[reference:66].
Vittorio Pozzo – O único técnico bicampeão mundial da história (1934 e 1938)[reference:67].
Leônidas da Silva – O "Diamante Negro", artilheiro da Copa com 7 gols[reference:68][reference:69]. Foi o primeiro brasileiro a terminar uma Copa como artilheiro[reference:70]. Conhecido como "Homem-Borracha" pela sua elasticidade, é considerado o inventor da bicicleta.[reference:71]
Domingos da Guia – Um dos maiores zagueiros de todos os tempos. Foi o líder da defesa brasileira, mas cometeu o pênalti que custou a eliminação na semifinal.[reference:72]
Gyula Zsengellér – Artilheiro da Hungria, com 6 gols[reference:73]. György Sárosi marcou 5 gols.[reference:74]
Itália e Hungria se encontram na decisão
A Itália passou pela Noruega nas oitavas (2 a 1 na prorrogação), pela França nas quartas (3 a 1) e pelo Brasil nas semifinais (2 a 1), em uma campanha de quatro vitórias em quatro jogos[reference:75][reference:76].
A Hungria venceu as Índias Orientais Neerlandesas por 6 a 0 nas oitavas, a Suíça por 2 a 0 nas quartas e a Suécia por 5 a 1 nas semifinais[reference:77].
19 de junho de 1938 – O bicampeonato italiano
19 de junho de 1938 – Estádio Olímpico de Colombes, Paris. Público estimado em cerca de 60 mil pessoas[reference:78]. A final colocou frente a frente a Itália, atual campeã mundial, e a Hungria, que sonhava com o título inédito.
O jogo – A Itália começou melhor. Aos 6 minutos, Gino Colaussi abriu o placar para os italianos[reference:79]. A Hungria empatou dois minutos depois, com Pál Titkos[reference:80]. Aos 16 minutos, Silvio Piola desempatou para a Itália[reference:81]. Aos 35 minutos, Colaussi marcou seu segundo gol e ampliou para 3 a 1[reference:82].
O segundo tempo – A Hungria tentou uma reação com György Sárosi, que marcou aos 15 minutos[reference:83]. Mas, aos 37 minutos, Piola fez seu segundo gol na partida e selou o placar em 4 a 2 para a Itália[reference:84].
O título – A Itália venceu por 4 a 2 e conquistou o bicampeonato mundial[reference:85]. A equipe italiana se tornou a primeira a conquistar dois títulos mundiais consecutivos (1934 e 1938).[reference:86]
A consolidação de uma potência sob o fascismo
O primeiro bi da história – A Itália se tornou a primeira seleção a conquistar dois títulos mundiais consecutivos (1934 e 1938).[reference:88] O técnico Vittorio Pozzo se tornou o único treinador bicampeão mundial até hoje.[reference:89]
A hegemonia italiana – A Itália venceu a Copa de 1934 em casa, foi campeã olímpica em 1936 e venceu a Copa de 1938 na França – uma dinastia de quatro anos de domínio absoluto do futebol mundial.[reference:90]
O contexto político – O título foi usado por Benito Mussolini como ferramenta de propaganda do fascismo. A seleção italiana, porém, foi vaiada pelo público francês, que era contra o regime de Mussolini.[reference:91]
O "Diamante Negro" brilha na França
O protagonista brasileiro – A Copa de 1938 foi o palco do primeiro grande ídolo do futebol brasileiro: Leônidas da Silva. O "Diamante Negro" encantou o mundo com sua técnica, elasticidade e gols.[reference:92][reference:93]
Atuações memoráveis – Leônidas marcou três gols na estreia contra a Polônia, incluindo um gol descalço em um campo encharcado[reference:94][reference:95]. Nas quartas de final, marcou o gol do empate contra a Tchecoslováquia e o gol da vitória no jogo de desempate[reference:96]. Na disputa pelo terceiro lugar, marcou dois gols contra a Suécia.[reference:97]
O artilheiro do torneio – Leônidas terminou a Copa como artilheiro, com 7 gols (há controvérsias sobre um 8º gol, mas a Fifa oficializa 7)[reference:98][reference:99]. Foi o primeiro brasileiro a conquistar esse feito.[reference:100]
O bicampeonato de uma dinastia
Campanha – A Itália venceu todos os 4 jogos que disputou (Noruega, França, Brasil e Hungria), com 11 gols marcados e 5 sofridos[reference:101].
Jogadores – O elenco bicampeão contava com grandes nomes: Meazza, Piola, Colaussi, Ferrari, entre outros.[reference:102]
Técnico – Vittorio Pozzo comandou a equipe com maestria, sendo o único técnico bicampeão mundial da história.[reference:103]
O primeiro de uma era – O título de 1938 foi o segundo de quatro conquistas italianas (1934, 1938, 1982 e 2006). A Itália se consolidou como uma das maiores potências do futebol mundial.
Números que contam a história
Artilheiros:
Público total: 374.922 pessoas (média de 20.829 por jogo)[reference:115]
W.O. histórico: A Suécia venceu a Áustria por W.O. após a anexação do país pela Alemanha nazista – o único caso de W.O. na história das Copas.[reference:116]
Fatos que você talvez não conheça
O último torneio antes da guerra e a consolidação do futebol-arte
O último Mundial antes da Segunda Guerra – A Copa de 1938 foi a última edição antes da Segunda Guerra Mundial, que começaria em 1939[reference:127]. O torneio seguinte só seria realizado em 1950, no Brasil.[reference:128]
A consolidação do futebol-arte brasileiro – O Brasil de 1938 mostrou ao mundo o talento e a criatividade do futebol brasileiro. Leônidas da Silva se tornou um ícone global e abriu caminho para o sucesso do Brasil nas décadas seguintes.[reference:129]
A hegemonia italiana – A Itália de 1938 confirmou seu domínio absoluto no futebol mundial da época, com dois títulos mundiais consecutivos e uma medalha de ouro olímpica.[reference:130]
O impacto político – A Copa de 1938 foi marcada pela política: o nazismo, o fascismo, a Guerra Civil Espanhola e o boicote sul-americano. Foi um espelho das tensões que levariam à Segunda Guerra Mundial.[reference:131]