A história completa da Copa em que a Itália, sob o comando de Benito Mussolini, conquistou seu primeiro título mundial em casa, em um torneio marcado por propaganda política, arbitragens polêmicas e a estreia das eliminatórias.
A ascensão do fascismo e a primeira defesa de título
O cenário mundial – Em 1934, o mundo ainda se recuperava da Grande Depressão, e a Europa vivia a ascensão de regimes autoritários. O fascismo de Benito Mussolini já governava a Itália desde 1922, e o nazismo de Adolf Hitler chegava ao poder na Alemanha em 1933. A política invadiria o futebol como nunca antes.
O Uruguai não veio – O Uruguai, campeão mundial em 1930, boicotou a Copa em represália ao boicote europeu que havia ocorrido em 1930[reference:0][reference:1]. A Argentina, vice-campeã em 1930, participou, mas foi eliminada na primeira fase[reference:2]. A Inglaterra, afastada da Fifa desde 1928, também não compareceu[reference:3].
O Brasil de Getúlio Vargas – O Brasil vivia um momento de transição política. Getúlio Vargas estava no poder desde a Revolução de 1930, e a Confederação Brasileira de Desportos (CBD) enfrentava conflitos internos entre o profissionalismo e o amadorismo, o que enfraqueceria a seleção[reference:4].
A primeira defesa de título da história – O Uruguai, campeão em 1930, não defendeu seu título, mas a Itália, como anfitriã, buscava seu primeiro título e o primeiro de uma dinastia que duraria até 1938.
A escolha política de Mussolini
A escolha da Itália – A Suécia havia se candidatado a sediar a Copa, mas desistiu dois anos antes do torneio[reference:5]. A Itália, sob o comando do ditador fascista Benito Mussolini, viu na Copa do Mundo uma oportunidade de propaganda política[reference:6], assim como Hitler faria com as Olimpíadas de 1936[reference:7]. Em 13 de maio de 1932, no Congresso da Fifa em Estocolmo, a Itália foi escolhida como sede[reference:8]. O general Giorgio Vaccaro, nomeado por Mussolini, garantiu que dinheiro não seria problema[reference:9].
Os estádios – Oito estádios em oito cidades sediaram os jogos[reference:10]. Três estádios foram construídos especialmente para o Mundial: em Nápoles, Trieste e Turim[reference:11][reference:12]. O estádio de Turim ganhou o nome de Mussolini[reference:13][reference:14]. O estádio de Roma foi rebatizado como Stadio Nazionale del PNF (Partito Nazionale Fascista)[reference:15]. O San Siro, em Milão, foi ampliado para 85 mil lugares[reference:16].
As eliminatórias – Pela primeira vez, as seleções tiveram que disputar eliminatórias para participar[reference:17]. 32 nações se inscreveram[reference:18], e 16 se classificaram[reference:19]. Curiosamente, a Itália, país-sede, também teve que disputar eliminatórias – o único caso na história das Copas[reference:20][reference:21].
16 equipes, com uma presença inédita da África
Participantes – 16 seleções disputaram a Copa de 1934[reference:22]. Doze eram europeias, três americanas e uma africana[reference:23]. Esta foi a primeira vez que um país africano participou de uma Copa do Mundo: o Egito[reference:24].
Estreantes – Egito (primeiro país africano)[reference:25], Alemanha, Áustria, Espanha, Hungria, Suécia, Suíça, Holanda e Polônia (esta não se classificou) fizeram sua primeira participação.
Ausências de peso – O Uruguai, atual campeão, boicotou[reference:26]. A Inglaterra não participou[reference:27]. O Peru e o Chile desistiram das eliminatórias[reference:28].
Mata-mata desde o início, com jogos de desempate
O regulamento – A Copa de 1934 inovou ao adotar o formato de eliminação direta (mata-mata) desde as oitavas de final[reference:30][reference:31]. Não houve fase de grupos. Quem perdesse, estava eliminado[reference:32].
Desempate – Em caso de empate após os 90 minutos regulamentares, era disputada uma prorrogação de 30 minutos. Se o empate persistisse, um novo jogo de desempate era marcado[reference:33] – a disputa por pênaltis ainda não havia sido adotada.
Sorteio – Os oito países mais poderosos, segundo a Fifa, enfrentaram em sorteio os outros oito[reference:34].
A pior campanha da história da Seleção
O Brasil chegou à Itália com uma seleção enfraquecida por conflitos internos entre dirigentes e federações[reference:38]. Clubes profissionais não liberaram seus jogadores[reference:39]. A CBD ofereceu dinheiro para convencer alguns nomes, como Leônidas da Silva e Tinoco, a disputarem o Mundial[reference:40].
A viagem de navio – A delegação brasileira passou 15 dias em um navio para chegar à Itália[reference:41]. A viagem foi tão longa que vários atletas chegaram completamente fora de forma[reference:42].
Brasil 1×3 Espanha – A Espanha marcou três gols em 30 minutos de partida[reference:45]. Leônidas descontou no segundo tempo[reference:46]. A Seleção ainda teve um gol anulado pela arbitragem e perdeu um pênalti[reference:47]. O Brasil foi eliminado na estreia, terminando na 14ª colocação entre 16 participantes[reference:48][reference:49].
Os craques que encantaram o mundo em 1934
Giuseppe Meazza – O grande craque da Itália e um dos maiores jogadores da história. Foi eleito o melhor jogador da Copa[reference:52]. Com apenas 23 anos, liderou a Azzurra ao título.
Angelo Schiavio – O artilheiro da Itália na Copa, com 4 gols[reference:53], incluindo o gol da vitória na final[reference:54].
Raimundo Orsi – Marcou o gol de empate na final[reference:55], um dos gols mais importantes da história do futebol italiano.
Luis Monti – O único jogador a disputar finais de Copa do Mundo por duas seleções diferentes: pela Argentina em 1930 e pela Itália em 1934[reference:56].
Vittorio Pozzo – O técnico que construiu a dinastia italiana, vencendo as Copas de 1934 e 1938.
Leônidas da Silva – O "Diamante Negro" fez sua estreia em Copas marcando o único gol do Brasil[reference:57]. Recebeu 30 contos de réis da CBD para jogar – um Ford de luxo custava cerca de 4 contos na época[reference:58].
Oldřich Nejedlý – O artilheiro da Copa, com 5 gols[reference:59][reference:60]. František Plánička foi um dos melhores goleiros do mundo[reference:61].
Itália e Tchecoslováquia se encontram na decisão
A Itália passou pelos Estados Unidos nas oitavas (7 a 1)[reference:62], pela Espanha nas quartas (empate em 1 a 1 e vitória por 1 a 0 no jogo de desempate)[reference:63] e pela Áustria nas semifinais (1 a 0)[reference:64].
A Tchecoslováquia venceu a Romênia nas oitavas (2 a 1), a Suíça nas quartas (3 a 2) e a Alemanha nas semifinais (3 a 1).
10 de junho de 1934 – O primeiro título italiano
10 de junho de 1934 – Estádio Nacional do PNF, Roma[reference:65]. Público estimado em 55 mil pessoas[reference:66]. A final colocou frente a frente a Itália, anfitriã e favorita, e a Tchecoslováquia, que buscava o título inédito.
O jogo – A partida foi disputada sob um calor intenso, com temperaturas próximas a 40 °C[reference:67][reference:68]. A Tchecoslováquia abriu o placar aos 71 minutos, com Antonín Puč[reference:69]. A Itália empatou aos 81 minutos, com Raimundo Orsi[reference:70]. Aos 95 minutos, Angelo Schiavio marcou o gol da vitória[reference:71][reference:72].
O título – A Itália venceu por 2 a 1 e conquistou seu primeiro título mundial[reference:73]. A equipe italiana se tornou a primeira seleção a vencer uma Copa em casa depois do Uruguai em 1930.
O início de uma dinastia sob o fascismo
O primeiro título da Itália – A Itália conquistou seu primeiro título mundial em 1934[reference:76]. Quatro anos depois, em 1938, a Azzurra se tornaria a primeira seleção bicampeã mundial.
A hegemonia italiana – A Itália venceu a Copa de 1934 em casa, foi campeã olímpica em 1936 e venceu a Copa de 1938 na França – uma dinastia de quatro anos de domínio absoluto do futebol mundial.
O contexto político – O título foi usado por Benito Mussolini como ferramenta de propaganda do fascismo[reference:77]. A influência do ditador extrapolou o campo organizacional e ficou nítida até mesmo na escolha dos árbitros dos jogos em que a Itália estava presente[reference:78].
Oldřich Nejedlý foi o artilheiro, com 5 gols
| Jogador | Seleção | Gols |
|---|---|---|
| Oldřich Nejedlý | Tchecoslováquia | 5 |
| Edmund Conen | Alemanha | 4[reference:79] |
| Angelo Schiavio | Itália | 4[reference:80] |
| Raimundo Orsi | Itália | 3[reference:81] |
| Leopold Kielholz | Suíça | 3[reference:82] |
| Giuseppe Meazza | Itália | 2[reference:83] |
| Giovanni Ferrari | Itália | 2[reference:84] |
Fato curioso: Oldřich Nejedlý marcou três gols na semifinal contra a Alemanha, mas a imprensa da época creditou apenas dois a ele[reference:85].
O primeiro título de uma dinastia
Campanha – A Itália venceu 4 jogos (Estados Unidos, Espanha no desempate, Áustria e Tchecoslováquia) e empatou 1 (Espanha no primeiro jogo). Foram 12 gols marcados e 3 sofridos[reference:86].
Jogadores – O elenco campeão contava com grandes nomes: Meazza, Schiavio, Orsi, Ferrari, Monti e o técnico Vittorio Pozzo.
O primeiro de quatro – O título de 1934 foi o primeiro de quatro conquistas italianas (1934, 1938, 1982 e 2006). A Itália se consolidou como uma das maiores potências do futebol mundial.
Números que contam a história
Público total: 395.000 pessoas (média de 23.235 por jogo)[reference:98][reference:99]
Prorrogações: 3 jogos[reference:100]
Melhor ataque: Itália, com 12 gols[reference:101]
Fatos que você talvez não conheça
O início da hegemonia italiana e a primeira grande polêmica política no futebol
O primeiro grande domínio europeu – A Itália de 1934 confirmou que a Europa era a nova potência do futebol mundial. Com dois títulos em quatro anos (1934 e 1938), a Azzurra iniciou uma dinastia que só seria interrompida pela Segunda Guerra Mundial.
A primeira grande polêmica política – A Copa de 1934 foi a primeira edição em que a política interferiu diretamente no futebol. O uso do torneio como propaganda fascista por Mussolini estabeleceu um precedente que seria seguido por outros regimes autoritários[reference:115].
O legado do mata-mata – O formato de eliminação direta adotado em 1934 e 1938 foi criticado por muitos, mas também consolidou a emoção do mata-mata como parte essencial da Copa do Mundo[reference:116].
O Brasil e a dura lição – A pior campanha da história do Brasil em Copas serviu como um alerta para a necessidade de profissionalização e preparo da seleção brasileira[reference:117].